Patrícia

Tenho pensado muito na Patrícia. Explico. Patrícia é a mãe do Gabriel. Gabriel é um menino de oito anos que desapareceu em Almería, no sul da Espanha. Durante 12 dias foi buscado por centenas de pessoas- policiais, bombeiros e voluntários- que subiram morros, desceram por poços, rezaram juntos à sua mãe, que se mantinha firme na esperança de encontrar com vida seu “peixezinho”, como ela o chamava. Mas 12 dias depois, o caso terminou da pior maneira possível. Gabriel foi encontrado morto, na mala do carro da namorada do seu pai. Assassinado pela madrasta, que primeiro enterrou e depois, com medo de ser descoberta pela policia, tentou levar o corpo para outro lugar.
O caso Gabriel parou o país. Milhares de pessoas acompanharam seu funeral, inclusive ministros e a governadora da Andaluzia. Milhões de outras pessoas acompanharam pela imprensa e pelas redes sociais. E foi por aí que o ódio se espalhou. Ódio pela madrasta, que igual aos contos de fada clássicos, quis se livrar do enteado. É fácil odiar esta madrasta. É uma bruxa. Um monstro. Um ser desprezível, que durante os dias de busca, se mostrava chorosa nos meios de comunicação. Dava consolo ao pai. De uma frieza inimaginável. E pior: a madrasta é negra. Imigrante da República Dominicana. O racismo aumentou o ódio e o ódio espalhou o racismo. Pena de morte, pena perpétua, expulsão imediata da assassina para a República Dominicana, que nosso dinheiro não para é para alimentar na prisão a esta pessoa. Que sofra no seu país. Tudo isto recebi pelo whatsapp nos dias posteriores ao crime. E eu não recebi muitas, imagino o que anda circulando por aí.
E no meio deste tsunami de ódio, uma voz se levantou. Patrícia, mãe do Gabriel: “Em nome do meu peixezinho peço que não se estenda a raiva. Que não falemos mais desta mulher. Que pague o que tenha que pagar, mas não falemos mais dela. Que fiquem apenas as boas pessoas. Que ninguém retuiteie coisas de raiva, porque este não era meu filho e esta não sou eu. Que deste caso fiquemos somente com as boas ações de tantos desconhecidos, que demonstraram o melhor dos seres humanos. Que fiquemos com a fé”.
Patrícia, não te conheço, mas você é uma das pessoas a quem mais admiro neste mundo. No teu lugar, não sei se conseguiria fazer o mesmo. Mas ela conseguiu fazer-nos lembrar que só o amor é razão de ser nesta vida. Sem ele nada tem sentido. Alimentar o ódio é ir contra a vida. Duvido muito que ela seja capaz de perdoar algo que não tem perdão. Mas talvez seja capaz de ser reerguer e voltar a caminhar por esta estrada da vida. Encontrar sua paz no amor que se dá e se recebe. E que este seja também nosso caminho em comum. Patrícia, tenho aprendido muito contigo. Obrigada de todo o coração.

Comentários

  1. Lindo Texto, Rosane !!! Parabéns !!! Também não consigo me imaginar no lugar de Patricia, mas, que bela lição de amor !!!
    Um beijo cheio de carinho para você e para Patrícia, nossa fonte de inspiração contra o ódio e a favor do amor !!!

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