LUGAR DE MULHER É … (Onde ela quiser)

Por Paula Santana, mãe de 4, especial para o Mães em Rede. 
Meio dia.
Estou parada no sinal da Rua Saturnino de Brito, Jardim Botânico, zona sul do Rio de Janeiro.
Conduzo três meninas de casa para o colégio na minha van de transporte escolar.
Estamos no caminho para pegarmos a quarta.
De repente, uma das garotas de dentro do meu carro grita:- Olha, tia Paula!!! Eles estão rindo de você.“Eles”: os guardas de trânsito.
Aqueles do jaleco verde fosforescente, os que ficam nos cruzamentos da cidade.
Minha auxiliar no transporte escolar confirma e me informa que os homens gargalham e falam que mulher tem que pilotar fogão e não van.- Que machistas! – berra uma das minhas clientes mirins.

– É mesmo!!! Eles não sabem que mulher pode fazer tudo que quiser no mundo? – grita outra.

– Você não vai fazer nada, tia Paula? Faz uma careta bem feia para eles!!!

Paira um silêncio no ar. Não consigo esboçar reação.
O sinal abre. Passo a marcha.
Pelo retrovisor, vejo carinhas de decepção. Sinto vergonha.
Passo outra marcha. O silêncio permanece.
Muitos pensamentos invadem a minha cabeça.
O primeiro: eu não posso expô-las!
Depois: violência gera violência e eu não posso ser um mau exemplo para as pequenas!
Não posso isso … não posso aquilo …
Uma enxurrada de “não possos” invade o meu cérebro.
Eles fingem dar razão aos homens que me olharam e riram, enquanto simulam mexer uma panela.
Sinto mais vergonha ainda de mim mesma.
Meio dia e quarenta. Porta da escola.
Alunas entregues, missão cumprida.
Estaciono para esperar os adolescentes que farão o caminho inverso sob os meus cuidados: o da escola para casa.

Meu celular apita. É um vídeo. Educação na Suécia.
A reportagem da Band mostra que no país nórdico com cerca de 10 milhões de habitantes, os meninos aprendem a pregar botão, fazer tricô, cozinhar e limpar a casa.
Na Suécia, existe investimento em formação igualitária, uma preocupação com mercado de trabalho equilibrado, uma licença maternidade parental ao invés de materna.
Ainda assim, segundo a ONU, por ano morrem 13 mulheres vítimas de violência por lá.
Abre parênteses
Uma pesquisa feita pelo Datafolha, referente aos anos de 2016/2017, mostrou que 503 mulheres foram vítimas de agressão a cada hora no Brasil.
52% delas se calaram e apenas 11% procuraram a delegacia da mulher para registro.
20,4 milhões de mulheres já receberam comentários desrespeitosos nas ruas.
13 mulheres morrem por DIA, vítimas de feminicídio aqui.
Segundo o Dossiê da Mulher, a cada 12 minutos, no Rio de Janeiro, uma mulher sofre algum tipo de agressão e o Dossiê aponta ainda, que a maioria não denuncia, porque tem receio de uma reprovação da sociedade, da família, medo de serem ridicularizadas e as coisas não darem em nada. As vítimas geralmente têm entre 18 e 45 anos.
Fecha parênteses.
Decido encaminhar o conteúdo sobre a educação na Suécia para minha rede de contatos do whatsapp.
É a maneira que encontro de fazer uma micro coisinha por nós, as mulheres.
Recebo várias mensagens em resposta ao que compartilhei.
Uma delas é a do Renato Mosci, empresário, dono da 500 Massas e acho que cabe a opinião de um homem aqui:
“Paula, lembro que na época de creche do meu filho, no dia das mães, as crianças faziam caixa de costura para presentear as mulheres e, no dos pais, uma gravata para os homens. Ficava P da vida com isso, porque é um rótulo que se perpetua. Infelizmente. Depois criticam as atitudes machistas que vemos por aí, mas nós não fazemos nada para uma transformação. É preciso começar na infância. Investimento em educação mais ampla. Aquela que vai além da geografia, do português e da matemática. Outro dia vi um filme alemão bem legal, que aborda esse tema. Chama-se Mulheres Divinas. Assista.”
Eu assisti, adorei, valeu Renato!
Recomendo o longa também. Assistam!
No mais, quero com a crônica de hoje dar voz às minhas meninas que, ao contrário de mim, não se calaram.
Garotas, vocês têm toda a minha admiração e respeito!
Para ilustrar: a faixa etária das “empoderadinhas” que transporto na minha van escolar varia entre 6 e 10 anos.
Conclusão?
Parece que temos uma geração menos disposta ao desrespeito, mesmo que no Brasil não estejamos investindo e pensando em educação de forma ampla e preventiva, como no primeiro mundo.

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