Invisível

Para nós, que somos estrangeiros, o evento acontece quase que sorrateiramente e teríamos que contar com a tal da sorte para conseguirmos, um dia, testemunhar a festa. Encenada por trupes nômades, em um dialeto ancestral, a tradicional Opera Chinesa vem perdendo público*, mas nós não queríamos perder o espetáculo. Foram nossos bons amigos, que conhecem gente influente no bairro, quem avisaram: “Hoje é dia de peça em Chinatown. Não percam!”.

Encontramos 3 palcos diferentes, quase escondidos, em uma pequena viela, em um estacionamento e no terreno de um templo. Alguns mais imponentes e badalados. Outros minúsculos, mas não menos coloridos. No terceiro e maior de todos, resolvemos ficar.

Havia muito para se admirar: o camarim a céu aberto, a coleção de belas maquiagens, os trajes luxuosos, o cenário de desenhos vibrantes realçados pelas chamadas “luzes de fada”, feitas em neon, com as quais se acredita que os deuses podem nos avistar do espaço. No palco, senhores de bigode chinês, que chegavam à altura dos joelhos, entoavam sons e interjeições agudas enquanto um deles segurava um protótipo de bebê no colo. Mulheres fantasiadas possivelmente de princesas ou rainhas participavam da cena, nem sempre com palavras, mas com olhares expressivos, impecavelmente realçados pela maquiagem.

A plateia era razoavelmente numerosa, quase todos acima dos 50 anos. Alguns prestavam muita atenção à apresentação. Outros nem tanto. De vez em quando ouvíamos algumas gargalhadas, sem compreendermos nada. Em uma mesa lateral, uma distinta senhora parecia mais preocupada com a fome dos outros e distribuía aos vizinhos pedaços de frutas, que cortava calma e repetidamente. Os jovens estavam por perto, em um templo construído em frente ao teatro, de costas para o palco, ajoelhando e acendendo imensas velas vermelhas.

Ficamos por ali durante uma hora. Mas como o espetáculo não vinha com legenda, nos levantamos para seguir adiante. Foi então que o mesmo senhor, que mais cedo havia nos oferecido cadeiras perto do palco, nos buscou na porta do templo: “Where are you from?” Ficamos instantaneamente íntimos, quando descobriu que éramos do Brasil.

Ele morou em Nova Iorque por quase 30 anos, aprendeu a falar espanhol com uma antiga namorada Argentina e se diz “quase latino-americano”. É muito grato à vida que teve na América e à boa aposentadoria que recebe de lá. Sentia saudades de ser “apenas” Ricardo, seu nome ocidental, e pediu que assim o chamássemos: “I was lindo and she, my girlfriend was linda, like you two are today!” Seu Ricardo continua forte, de cabelos prateados, com um sorriso contagiante: “Hoje é dia de recebermos os nossos mortos. Estamos felizes. Montamos o templo, acendemos velas, para que eles enxerguem onde estamos, enquanto os atores encenam para os nossos antepassados mortos e também os vivos. Todos fazemos doações e recebemos frutas que nos darão muita sorte!” Seu Ricardo também não deve entender o dialeto ancestral e estava saracoteando pelo evento. Os tais “mortos” não sei bem se estavam entre nós, na frente do palco, em volta das velas ou em todos os cantos, mas segundo nos afirmou, lá estavam.

No dia seguinte, tomava meu café-da-manhã com as crianças e dividíamos entre os quatro as duas laranjas que ganhamos de seu Ricardo – ‘as frutas da sorte’.

“Mamãe, sonhei com a sua avó Helena. Ela me disse que estava aqui e que ficou muito feliz de estar perto da gente. Ela ADOROU conhecer a mim e ao Bento!”

Os meninos nunca chegaram a conhecer a minha falecida avó (peça importante na minha criação). Emocionada e confusa, me vi mastigando uma laranja entre um mundo que existe e um outro possível e/ou imaginário. Torci pelos rituais, para que a arte siga levando o homem para cima das nuvens, por seguirmos abertos ao que possa nos parecer definitivamente estranho. Nunca se sabe o quanto uma história tão peculiar poderá nos levar tão longe, para uma possibilidade de vida além da que imaginamos, para o invisível, ou para logo aqui, um trivial café-da-manhã, partilhando frutas e conversando sobre um lindo sonho, que até parece sorte, se não for realidade.

João junto ao tailandês mais latino-americano de Bangkok.

 

*Cerca de 14% da população tailandesa têm descendência chinesa. A Tailândia tem a maior comunidade chinesa no exterior.

 

Comentários

  1. Mais uma delicia, Bia! Entre laranjas, risadas dos bigodes enormes e o sonho do Rodinei Vicente, Helena – a Mercury, deve ter se deliciado, cheia de olhos que riam ( e como sabiam rir) e com as caras engraçadas, que numa linguagem também invisível, nos fazia compreender um amontoado de palavras. Sutis, aos gomos! Um pouco do brilho de fadas, trazido na voz concreta do quase latino americano Ricardo, conhecedor de frutas da sorte. Bjs para vcs.

  2. Você me levou à Tailândia através de sua descrição. Deve ter levado também vovó Helena, àquela homenagem aos que se foram. Ela ,certamente , foi evocada no silêncio da sua alma. Muito interessante. Lembrei do desenho animado que vi com os netos sobre o culto mexicano aos mortos cuja melodia ganhou o Oscar. A vida é uma festa.

  3. Bia querida !!
    Que texto mais sensível, mais lindo e respeitoso. Amei de paixão !! Assim como amo tudo o que você produz !!! Parabéns minha linda !!! Sou amiga da sua mãe, desde que éramos crianças !!!Conheci muito sua avó Helena, fiquei emocionada com a “coincidência” !!!! Uma beijoca muito querida para você !!!

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