Abaixo o material escolar! Go to the bar!

Nossa colaboradora Paula Santana, mãe de 4, conta a aventuras de desventuras de comprar material escolar para a trupe. Mas o principal é como uma pequena mudança de paradigma pode fazer toda a diferença.

Um sábado antes do início do ano letivo. Papelaria grande e famosa no Rio de Janeiro.
Eu, dois de meus quatro filhos e uma amiguinha deles. Os três parecem estar na Disney.
Eu, no purgatório.
Logo de cara me deparo com uma pilha de cadernos. O mais barato: oito e cinquenta.
Preciso de trinta e quatro.Trinta e quatro cadernos.
Copiaram? Agora, façam a conta.
Isso aí: duzentos e oitenta e nove reais, só de espirais, se eles toparem os mais baratos.
Há! E quem tem filhos sabe que o menor preço dificilmente é uma escolha.
É purgatório ou não é?

À medida que vou incluindo cada caderninho no meu carrinho, percebo que um funcionário da loja me observa, com um semblante que traduz “choque”. As crianças, no paralelo da cena, professam um mantra: compra esse mamãe! compra esse mamãe! compra esse mamãe! Selvagem!

Trinta e quatro cadernos. Penso na matemática. No Planeta.
Penso no jornalista André Trigueiro e suas palestras.
São três mil e sessenta folhas só na minha residência.
Multipliquemos então os dez cadernos solicitados para uma única criança, pelos alunos do colégio inteiro.
Agora, multipliquemos pelas escolas da cidade? Do país?

Olho para o funcionário em questão e pergunto: que horas é permitido surtar?
O ambiente à minha volta é bizarro. São vários pais empurrando carrinhos cheios de itens, com a coluna curvada, listas em punho, parecem robôs. Penso no Chaplin. No filme Tempos Modernos.

Tenho vontade de propor um ato de rebeldia: “Abaixo o material escolar and go to the bar!”
De repente, no corredor das pastas, encontro uma mãe amiga. É a Marcela Peconick.
A “Marcelinha” é mãe, jornalista, psicopedagoga com especialização em Mídia, Educação e Educação Infantil. Ela defende que não é só a Previdência e a Política do nosso país que precisam de uma reforma urgente. E ao invés de ficar sentada reclamando do sistema educacional ou falando nas redes sociais, resolveu fazer alguma coisa. Montou o Espaço Corujona, um projeto cuja coluna vertebral é promover o vínculo familiar, a autonomia, o despertar da consciência. O que me chama mais atenção na postura dela é a coragem de mudar paradigmas.

E é quando eu encontro com a Marcela no tal corredor das inúmeras pastas de plástico, que tenho um estalo sobre o meu comportamento automatizado. Até aquela hora, eu me movimentava exatamente como os outros pais ali presentes.
Conclusão? Acordei do transe.
Abaixo aos trinta e quatro cadernos do meu carrinho!
Troquei todos eles por três destes grossos, que comportam dez matérias cada e pronto.
Pode parecer pouco, mas isso representa uma economia de dois mil e tantas folhas de papel, só na minha casa.
Desconfio que o planeta suspirou um pouquinho aliviado.

E para minha surpresa, o meu universo de mantras consumistas deu espaço ao diálogo, um outro tipo de comportamento emergiu dos meus filhos. De repente, me vi imersa numa conversa riquíssima sobre compras, desperdício, colaboração, sustentabilidade, capricho e consciência, com as crias. Fiquei impressionada com a desenvoltura e maturidade com que se posicionaram frente aos temas.
Parecia outra dimensão.
Pareciam outras crianças …

Mudei de uma realidade para outra e aí me lembrei do que o professor e mestre tibetano Myngiur Rinpoche diz:
“Quando você transforma a sua mente, tudo o que você vivencia é transformado também.”
Sejamos a mudança que queremos ver no mundo.
Que neste ano de eleição, possamos ser um pouco mais “Marcela”, porque ficar só no Re-clamar significa continuar clamando pelas mesmas coisas, várias vezes, sem sair do lugar.

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