Ser bilíngue

“ – Hugo, calça logo estes calcetines. Anda! Não enrola não, que llegaremos super tarde!”
“ – Carol, recoge todos estes brinquedos del salón. Deixa tudo espalhado! Tem juguetes até debaixo do sofá!”
Quem fala assim? Pois eu, a rainha do portunhol. Da vergonha, mas não tem muito como fugir. O que me consola foi ler em um artigo de um linguista, explicando que quem fala duas línguas sempre vai usar a palavra mais fácil. Ou a estrutura mais fácil. Então, mesmo me policiando, vou misturando o português com o espanhol sem perceber, ou percebendo, corrigindo, para voltar a falar cinco minutos depois. Difícil.
Mais fácil quando tenho outra pessoa com quem falar português. Aí a mistura acontece, mas é mais rara. Nossa língua materna volta fácil. O contrário não é tão fácil. Depois de férias no Brasil, por exemplo, o espanhol ainda demora uns dias para voltar com mesma fluidez. Fico sem as certezas das palavras. Insegura. Perguntando: existe isto que acabo de falar?
Há pouco tempo li este artigo no jornal El Pais em que pesquisadores discutem quando uma pessoa é verdadeiramente bilíngue. Quando sonha em outro idioma? Quando xinga e manda para a pqp? Quando consegue expressar sentimentos? Eu, que não sou linguista nem nada, te posso dizer: somos bilíngues quando viver em outro idioma não requer um esforço hercúleo. Lembro-me do cansada que chegava a casa depois de um dia qualquer. Mesmo que fosse um simples almoço com a família do marido. Entender, fazer-se entender, exigia tal concentração, que acabava exausta. E falar no telefone? Sem a linguagem corporal tudo se complicava mais. Qualquer bobagem requeria tanto esforço, que fiquei com trauma de telefone. Lembro que depois de dois anos sem ir ao Brasil, fomos por fim de férias e tinha que fazer uma reserva de hotel por telefone. Liguei, falei em português e foi tudo tão fácil, senti um alívio tão grande, que só então fui consciente do grande esforço que é viver em outro idioma.
Mais de 10 anos depois, sim, posso afirmar que falo, sonho, xingo e expresso sentimentos em espanhol sem sintoma de cansaço, mesmo que o sotaque continue igual. A língua está tão incorporada que o portunhol é inevitável. Mesmo quando escrevo em português, tenho que me vigiar para não utilizar a estrutura gramatical do espanhol. E mesmo assim sei que uso e simplesmente não vejo mais a diferença.
Minha única tristeza linguística é que meus filhos não falam português. Eles entendem, usam algumas palavras, mas falar, o que é falar mesmo, não. Para meu consolo, quando passamos férias longas no Brasil, na última semana antes da volta, eles se soltam e falam mais. Mesmo assim, ainda dentro do avião, ao aterrissar em Barcelona, Hugo se vira para mim e fala: “mamá, estamos en España. Aquí se habla español”. Sem discussão.
É complicado porque só eu falo português com eles no dia a dia. Todas suas referências são em espanhol. Mesmo quando encontramos amigos brasileiros que vivem aqui, as crianças falam espanhol entre elas. No Brasil, eles se comunicam espanhol na maior cara de pau e, como todos entendem a maioria das palavras, não se esforçam em falar outra coisa. Leio livros em português todas as noites, volto do Brasil carregada de histórias e eles adoram clássicos como Marcelo, Marmelo, Martelo e Chapeuzinho Amarelo (meus preferidos para falar da língua), mas não há melhora no quesito fala. Aí começo a me culpar por não colocar mais desenhos em português no Youtube.
Se a nossa pátria é a nossa língua, me sinto reconfortada em saber que já tenho duas. Custou, mas chegou. E continuar o trabalho de seguir dando a outra pátria para os meninos. Porque isto é uma grande sorte. Afinal, que outra língua tem mixuruca, mambembe e cadarço? Pelo menos uma coisa eles aprenderam a falar: eiiiiita!
Para quem quer saber mais sobre o ensino do português para brasileirinhos no exterior, existe o programa Português como Língua de Herança. Dá para encontrar ajuda para o ensino em casa.

Comentários

  1. Perfeito texto e análise, prima. Entendo o dilema e sei o qt se esforça para manter o nosso país dentro deles. Parabéns mamãe e educadora. Muito orgulhosa. Grande beijo

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