Paixão de família

Sou mãe há quase 11 anos. Claro que me desmanchei quando o Arthur falou “mamãe” pela primeira vez, vibrei com os primeiros passos, chorei não só na primeira, mas em todas as apresentações na escola, e assim por diante… Mas nada se compara à primeira vez em que, lá pelos 4 anos, ele mandou: “Mamãe, papai, bota rock! Bota alto! Mais alto!”

Para dois quarentões, como eu e Flávio (o “papai”), que desde a adolescência malham os ouvidos com hard rock, heavy metal, punk e grunge, aquela vozinha soou como o mais melodioso solo de guitarra da vida! Parece maluquice. Mas é paixão. Paixão daquelas que a gente precisa pra aguentar o tranco e seguir em frente…

Entenda: somos cariocas, mas nos divertimos menos na praia do que na garagem, com as janelas do carro fechadas pro (muito) alto e bom som não escapar. E o moleque de cabeça pra baixo no banco de trás. Também temos várias camisetas daquelas com estampas de bandas. De uns tempos pra cá, aprimoramos nossa identidade “família rock’n’roll” e entramos numa de usar camisas idênticas em dias de show. E não tem essa de mico, não: o Arthur adora nosso enxoval “trio de jarras”!

Foi assim, com a mala repleta de peças iguais, de três em três (eram 15 ao todo!), que aterrissamos na Flórida, em meados de janeiro, nas férias. Nada de Disney. Fomos direto ao Porto Canaveral, para embarcar num cruzeiro até as Bahamas: o ShipRocked, festival americano de rock que confinou num navio 20 bandas e 2,5 mil fãs apaixonados durante cinco dias, em alto-mar.

No lugar da piscina, no deque principal, havia um palco irado, com toneladas de caixas de som. Fora os outros vários locais de apresentação, distribuídos por 11 andares, que permitiam ver artistas tocando a distâncias às vezes menores que um metro, sem empurra-empurra! Perfeito para um roqueiro mirim! Foi num desses lounges que o Arthur recebeu alguns “tesouros” das mãos de músicos, como palhetas e baquetas. Um outro chegou a pendurar o baixo no pirralho e o deixou “tocar” por alguns instantes. Transe familiar!

Em meio à agenda alucinada de uns 10 shows por dia, até que deu tempo de mergulhar nas águas cristalinas do Caribe! Mas o grande barato do ShipRocked é a chance de, a qualquer momento, esbarrar com alguns de seus rockstars preferidos nas escadas, elevadores, restaurantes… tirar uma fotinho, bater um papinho pra treinar o inglês, tietar sem avanço, sem atropelo… É mais ou menos assim: você está vendo o show de uma banda que ama e, de repente, olha pro seu lado e está ombro a ombro com o cara da outra banda que você adora. Troço de louco.

Arthur deu uma de detetive e descobriu que estavam hospedados no mesmo corredor que a gente o cantor e o guitarrista de um grupo que ouvimos dia sim e o outro também em casa: o Red Sun Rising (vale a pena ouvir: tem um estilo próprio, um grunge que chega a flertar com o pop). Resolvemos escrever juntos uma cartinha, contando sobre nossa ligação com a música deles, e colamos com fita adesiva na porta da dupla. Durante o show, horas depois, num teatro repleto de gente, o cantor nos localizou na primeira fila do balcão, nos apontou e agradeceu, na frente de todo mundo.

Felizões com Shaun Morgan, líder da banda grunge Seether, mas com camisas do grupo de heavy metal Stone Sour, que também estava no navio. / FOTO OSTENTAÇÃO DE ÁLBUM DE FAMÍLIA #orgulho

Ficamos carinhosamente “famosos”: éramos a família das camisas iguais, que veio de um país distante com o garotinho de cabelo comprido. Algumas pessoas nos cumprimentavam por proporcionar aquela euforia ao pequeno ou cediam lugar mais perto do palco para ele. Uma verdadeira onda de amor roqueiro! Lembro bem de um inglês, de uns quase 30 anos, que fez saudações ao Arthur e afirmou: “Cara, eu queria ter estado aqui com 10 anos de idade também! Aproveite! Guarde na memória!”

Não sei se meu filho sacou a profundidade do que o rapaz falou. Só sei que a criança, sem querer, foi ainda mais fundo e cunhou a “hashtag” da nossa viagem: “Mamãe tá felizona!!!”. A frase foi dita no ouvido do pai, eu soube depois, enquanto eu pulava “like a crazy brazilian” no show do Red Sun Rising.

No fim das contas, algo que realmente acende o coração de uma criança é a felicidade da família. Talvez a vida adulta, ainda mais nestes tempos esquisitos, não permita que a mamãe esteja tão explicitamente “felizona” com muita frequência… Mas ali ele sentiu a paixão, ficou feliz, e isso basta.

Por acaso, aqui em casa é o rock. Mas o que faz nossos três corações baterem juntos poderia muito bem ser o futebol, o samba, o cinema, as artes plásticas, a dança, a natureza, os videogames… Qualquer que seja, o importante é ter uma paixão tamanho família. Recomendamos!

Fernanda Portugal é carioca, mãe do Arthur há 10 anos, jornalista há 25 e roqueira desde sempre. 

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