Made in Brasil

Diz o poeta que o nosso povo “toma pileques de ilusão com o futebol e o carnaval”. Pois depois de tanto tempo fora da nossa terra, precisávamos nos embriagar de alguma folia. Combinamos com os amigos e saímos a caráter, mas logo nos demos conta que não seriam muitos os foliões em Bangkok. Tentamos a primeira festa que anunciavam com uma bela mulata no convite. As ladyboys de roupas Globeleza estavam poderosas nos recebendo na porta, mas ali não tinha carnaval.

Saímos em busca de um pandeiro, um tamborim ou um ritmo qualquer que reverberasse dentro do peito. Seguimos para a celebração mais distante, 5 adultos dentro de um pequeno TukTuk e suas luzes de neon. A outra festa, com o título de Revo de Janeiro, tinha como símbolo o carimbo do Cristo Redentor. Logo à porta, três russas com porte de modelo, nos receberam em micro-biquínis e plumas variadas. A música meio-techno-meio-lambada deixava claro: gringo até gosta da ideia, mas não entende de carnaval. Mas sabe-se lá, os franceses costumam gostar de música brasileira, então insistimos com o DJ. Passamos ali uma cola ou outra, músicas híbridas de samba, daquelas que ganharam o mundo: “quem sabe Jorge Ben ou Sérgio Mendes?”. Do alto de sua sabedoria e vasto conhecimento musical, o DJ francês acenava confiante sem tirar os olhos das pickups: “pode deixar, eu vou tocar a música de vocês.”

As luzes diminuíram e o som da bateria começou a crescer. Um buraco se abriu na pista e as três russas entraram prontas para chacoalhar. E chacoalharam cinco minguados segundos dentro do ritmo que queríamos, logo substituído por um axé estilo Segura o tchan, para agitarem assanhadas e repetidas vezes os elegantes quadris até o chão. Depois disto fomos largados ao som de Anitta, Loucona, Bum bum Tam Tam, Danza Kuduro e outras obras sobre as quais o sábio Shazam tratou de me atualizar. Nos entregamos ao show do barman, que ateava fogo à bancada besuntada de álcool, fazia malabares com labaredas e distribuía drinques.

Domingo foi o dia das nossas cinzas e logo cedo os meninos estavam curiosos para ter notícias de onde a peruca black power e o vestido de paetê tinham pulado o carnaval. Ligamos a TV, mostramos o que é a nossa festa. Assistimos juntos a desfiles históricos e documentários sobre blocos de rua. Cantamos e pulamos Liberdade, Liberdade e Allah-la-ô. Bento, que tem memórias lindas da folia, era só alegria. Já Vicente estava cismado, tentava entender se no carnaval a gente tinha mesmo que sair pelado. “Mas tem que ser muito corajoso, eu não posso nem pensar nisso!” Lembrou logo do seu livro do Flamengo, em que Ziraldo retrata cenas do carnaval entre importantes passagens do futebol rubro-negro. Mostrou que nos quadrinhos também tinha uma mulher quase nua. Mas logo depois já queria entender se homem também ficava como veio ao mundo. João explicou que era menos comum – “mas cada um se fantasia do que quiser. Inclusive tem homem que se veste de mulher.”. Vicente não pareceu se impressionar – vive na Tailândia e essa parte ele já entendeu.

Para a nossa sorte, naquele momento em que as perguntas cresciam e a ressaca tomava conta da vida adulta, a tela mostrava um barbudo vestido de menina, com perucas coloridas, tocando trombone. Rimos todos. E quietos, João e eu pensamos que carnaval na Tailândia poderia gerar conversas profundas e abrir novas temáticas naquelas cabeças tão curiosas: “meio-homem-meio-mulher-quase-pelado?”.  E sabemos que essa conversa vai acontecer logo mais, mas, por enquanto, estamos imaginando que em um próximo fevereiro precisamos dar a eles essa experiência que não se explica e não se exporta: o nosso verdadeiro carnaval.

 

Comentários

  1. Muito bom! Imagino esta experiencia em BangKok! O Tuk-tuk, cheio de luzes, virou o carro alegórico possível, os brilhos do vestido e a cabeleira black-power ajudaram no compasso do coração. Bento, com certeza, lembra-se das marchinhas e até vejo a carinha dele, cantando. Rodinei Vicente vai adorar a experiencia de um carnaval no Brasil, vai olhar ressabiado e se deixar levar com a sua cara de malandro, batendo no peito o acompanhamento da bateria. – Pelo visto, vcs seguraram o tchan, Malandros! Ainda bem que não tiveram que identificar tiros com a Jojo Thoddynho!!!!! Rodinei, você vai adorar esta bagunça divertida e deliciosa. Bia , Quesito enredo – NOTA DEEEZZZZ! Rsssss Bjs

  2. Muito bom mm! NOTA DEEEZZ com certeza! Marina e Luiza sao especialistas em bloquinhos tanto no Rio como em Sampa. Até eu sai num bloquinho em Camburi e fale pro Vicente que eu estava vestida!!! Kkkkkkkkk

Comentar