Crianças são só crianças

Colaboração especial de Paula Santana, profissional de comunicação, carioca e mãe de quatro (Raphael, 22, Bernardo, 17, Mariana, 12 e Alexandre, 11) 
São dez da manhã. Estou parada no sinal de trânsito.
Meu filho caçula, ao lado, no banco do carona, mantém os olhos fixos na palma das mãos.
Acertou quem disse celular. Os ouvidos, estão cobertos por um destes fones gigantes.
Ele parece um marciano. A atenção é exclusiva para o youtuber Lucas Neto.
Adora o canal do moço.
De repente, somos surpreendidos por batidas na janela do carro.
É um menino. Faz sinal.
Indica que vende bananadas.
Abro o vidro. O garoto sorri.
Minha curiosidade apita. Puxo uma conversa, claro.
Mas, antes, encosto o quatro rodas.
– Qual seu nome?
– Cleberson.
– Qual sua idade?
– 11 anos
– Você estuda?
– Sim, sim.
– Onde?
– Em Duque de Caxias. Eu moro lá.
Meu filho, tira os fones. Decide acompanhar o papo.
– Que horas é a aula?
– De manhã.
– Ué! Então, não deveria estar no colégio?
Nem percebo o tom “materno inquisidor” para cima do moleque.
Meu filho me lança um olhar de repreensão. Não ligo.
– Eles liberam a gente às nove, tia. Daí, eu venho para cá e vendo doce para ajudar minha mãe. Ela precisa desse dinheiro para comprar as fraldas e o leite da minha irmã.
Meu menino me lança outro olhar.
Agora, não sei dizer se expressa pena, incredulidade, indignação, tristeza ou tudo junto e misturado.
Eu continuo com minha curiosidade e maternidade em punho:
– Cadê a sua mãe?
– Ela fica ali, no viaduto (aponta o dedo para o outro lado da rua), com a neném. Quando eu vender tudo, encontro elas e vamos embora.
– Você costuma fazer um bom dinheiro?
– Ahhhh faço! O pessoal aqui da parte bonita da cidade é bom de doce, tia.
“A parte bonita da cidade” é a zona sul do Rio de Janeiro.
Estamos na Lagoa Rodrigo de Freitas.
Nós e o Cleberson.
É um lugar lindo mesmo.
– Você tem algum sonho?
– Como assim, tia?
– Existe algo que você deseje muito na vida?
– Um Samsung. E destes de tela bem grande, para eu assistir as coisas.
Acho interessante ele mencionar a marca, para descrever o produto.
Acho interessante, também, a resposta não passar por jogador de futebol.
– Mas, Cleberson, o que você quer tanto assistir?
– Um cara engraçado que faz desafio de Nutella na banheira.
Meu filho ri. O garoto ri.
Agora, rola uma cumplicidade entre eles.
Percebem que gostam do mesmo youtuber.
Do mesmo celular de tela grande.
São mais parecidos do que imaginavam.
Eu admiro a cena. Me emociono.
Eles têm a mesma idade. Os mesmos interesses.
Crianças são só crianças. Deveriam ser só crianças.

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