Crianças e pais, tiranas e culpados: onde isso vai dar?

1: O avião estava cheio naquele último vôo de domingo pós-feriadão. A mãe viajava sozinha com duas crianças. Já na fila de embarque era possível ouvir o início da negociação com o menino, que aparentava uns cinco anos: você vai se comportar, né, Gustavo? Vai colocar o cinto bonitinho, né, filhinho? Gustavo fazia de brinquedo o carrinho das malas e quase nos atropelou. Desceu correndo a rampa em direção ao avião, esbarrou em duas senhoras. Era óbvio que a negociação não surtiria efeito. Portas fechadas, hora de decolar. Ele se recusava a colocar o cinto. A aeromoça constrangida. O vizinho de corredor impaciente. Precisou a intervenção do chefe dos comissários para a mãe concordar em dar uma dura no garoto, que colocou o cinto, mas seguiu protestando aos berros por longos cinco minutos até que o sinal da decolagem se apagou. E tudo se repetiu na aterrissagem.

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2: No restaurante, mãe, pai e filho. Assim que chegam, antes mesmo de pedir os pratos, já sacam o iPad  da bolsa para a criança de aparentes sete anos assistir enquanto come. O pequeno joga enquanto a mãe oferece comida, na boca. Mas eis que a bateria do eletrônico acaba. O garoto começa a chiar. A mãe pede providências para o pai: coloque para carregar. O carregador não é encontrado, foi esquecido em casa. A retreta do menino fica mais alta. Começa a segunda guerra mundial entre o casal: eu-falei-para-você-trazer-o-carregador-e-eu-perguntei-se-tinha-bateria. O garçom se aproxima e a mãe pede que um carregador seja oferecido porque a criança precisa do iPad. O funcionário diz que não tem como resolver. O pai entrega contrariado seu celular para o filho, que começa a ver vídeos no YouTube num volume desapropriado para o ambiente. Os vizinhos de mesa olham reprovando. A mãe pede a conta e reclama da demora: “Eu já não sabia o que fazer. Vocês não têm carregador e ainda demoram com a conta!”

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3: A menina já entrou no posto chorando, dizendo que não ia tomar a vacina. A mãe com o menor no carrinho. O pai vinha atrás, olho na tela do celular. A babá a puxava pela mão. Nenhum deles parecia ouvir o lamento da garota, que foi se arrastando e aumentando pelos 20 minutos de espera na fila da vacinação. A babá ajeitava o cabelo da garota, enxugava as lágrimas, mas não emitia nenhum comentário. Uma senhora tentou consolar e argumentou que todo mundo precisava se vacinar. A menina chora e protesta mais alto. A mãe sacode o bebê, o pai troca de aplicativo, a babá oferece água. Eis que chega a hora da injeção. Todos esperam o comando da enfermeira, que diante do desespero da menina pede que saiam, acalmem a criança e voltem depois. Os dois pais reagem: como assim? Vocês estão se recusando a vacinar minha filha? A enfermeira ignora e chama o próximo. O pai decreta: ah, ela volta amanhã com a babá. Não tenho tempo para esse stress de novo.

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Não são poucas as vezes que vemos crianças dando defeito. Estão cansadas, com fome, com sono.

Mas nem sempre é isso.  Algumas são pequenos tiranos criados por pais cansados, esgotados, estressados e culpados. Que não sabem como levantar os muros e dar limites, nem como lidar com as situações de criar um filho nesse mundo difícil onde estamos metidos. Esperam que alguém os socorra, que lhes tire essa responsabilidade. A aeromoça, a babá, o garçom, uma professora, um tio, a folguista, a enfermeira.

No fundo, todos ali, as crianças e os pais, gritam por ajuda.

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