A violência que nos separa

Quando me casei, no fim do século passado, um amigo pegou carona na canção do Lulu Santos e escreveu num cartão: “Não falta mais reunir a Zona Norte à Zona Sul!” **. Bem sacado. A noiva vinha de Ipanema e o noivo, da Vila da Penha. Foi namoro de Avenida Brasil – de cá pra lá, de lá pra cá, com muito orgulho. Grávidos, combinamos que nosso filho estaria sempre pelo subúrbio carioca, para conhecer e nunca esquecer aquela parte de suas raízes.

Mas o tempo passou e, como se fôssemos aqueles velhos políticos em campanha, não mantivemos nossa promessa. Há cerca de dois anos nosso filho não visita a avó paterna. Nem os tios e primos.

Da última vez, tentamos tapear a criança, dizer que eram fogos de artifício que causavam o barulhão. Mas a movimentação nervosa na casa fez as pernas da mentira encurtarem rapidamente. Eram rajadas e explosões mesmo. Tiroteio pesado num sábado à tarde. Balas de verdade, não de videogame. Era uma invasão do Bope na comunidade ao lado, com morte de traficante “famoso” e “comemoração” das autoridades na tela da TV.

Desde então não fomos mais lá. Um “lá” que deveria ser “ali”, pois são apenas 30 quilômetros. Mas as distâncias no Rio de Janeiro parecem ter passado a ser gradativamente medidas em anos-luz, com o avanço da violência, construída ano a ano pela miséria, pelo desgoverno e por sabe-se lá que interesses…

Claro que a violência sempre existiu. Mas naquele tempo de namoro, de ir e vir pela Avenida Brasil, ela não metia o pé na porta do carioca o tempo todo, todo dia. Não estilhaçava a cidade deste jeito, fazendo lei, ordem e paz terem tantos pesos e tantas medidas. Não nos forçava a perguntar, antes de sair de casa pra pegar a Avenida Brasil, a Linha Vermelha ou a Linha Amarela: “Dá pra ir até aí hoje, ou ainda tá brabo?”.

Não fazia a vida parar.
Não fazia avós e netos ficarem separados.

Assim vai crescendo o medo e, com ele, aquela velha senhora culpa de mãe. Culpa por não ter 100% de certeza de que será capaz de proteger os filhos; por não conseguir manter uma simples promessa como aquela que, grávida, fez um dia; por sucumbir ao terror das balas voando; e até mesmo uma dose de culpa por estar do lado de cá da cidade, supostamente a salvo (pelo menos até o próximo assalto).

E assim se passam os dias no Rio de Janeiro. A julgar pelos últimos acontecimentos, ainda falta mesmo muito, muito, muito pra reunir a Zona Norte à Zona Sul.

** (Parênteses pros leitores mais jovens ou mais esquecidos – a música de Lulu Santos, ‘O Último Romântico, dizia: “Talvez eu seja o último romântico / Dos litorais desse Oceano Atlântico / Só falta reunir a Zona Norte à Zona Sul / Iluminar a vida / Já que a morte cai do azul…”)

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