O drible

Ele chegou da escola pensativo, lavou as mãos, foi à cozinha para tomar seu iogurte, mas antes de sentar voltou para a sala.

Mamãe, posso falar uma coisa importante com você? Será que a gente pode decidir mudar de nome?”.

Minha memória chegou rapidamente nas 450 vezes em que nenhum nativo da língua inglesa, indonésia ou tailandesa conseguiu entender, muito menos pronunciar, o nome: “VIIII-CEEEENN-TEEEE!”

Já faz um tempo que venho ouvindo ele se apresentar de outro jeito: “My name is Vi”. Concordo com ele que é melhor simplificar. Há alguns dias o ouvi se apresentando a uns meninos que brincavam no prédio: “I’m Vincent, and you are?

Em Portugal ainda tínhamos as raízes brasileiras presentes ao nosso redor, mas desde Bali comecei a perceber e a me preocupar com as questões que vivem os chamados “Third Culture Kids*”.

E então naquela mesma semana, Vi ou Vincent chegou da escola entusiasmadíssimo: “Na aula de artes aprendemos sobre um artista muito famoso. Ele nasceu na Itália, mas saiu da Itália aos 3 anos de idade. Mudou para a França, morou lá até os 5 anos, depois Alemanha aos 9 anos porque o pai mudou de trabalho e aí França aos 14 e foi para os Estados Unidos da América, onde morreu no ano de…74, sim 74.” Ele não lembrava o nome do artista, mas foi em frente: “A obra dele era muito maravilhosa e ele trabalhava só com padrões, como os padrões da matemática que eu adoro. E sabe o quê? A obra que eu fiz agora na sala usava aquilo que eu mais amo desenhar ultimamente. Lembra o que é?” 

Naquele momento, senti um misto de preocupação e alívio. A preocupação envolvia o tema de identidade. Recentemente o pequeno garoto resolveu desenhar diariamente migrações de manadas de búfalos pelos campos da África. Passa ao menos meia hora por dia desenhando infinitos pontos, milimetricamente separados, como se estivéssemos visualizando a migração da manada por um drone. No início não me preocupei, já que somos fanáticos pelos documentários de David Attenborough e a vida selvagem da África. Mas resolvi problematizar, pensar nessa coisa de Vicente já ter mudado tantas vezes de país, nas migrações que se repetem no desenho. No quanto os desenhos não o estariam ajudando a procurar, dentro dele, um lugar de pertencimento. Afinal quanto sobraria, para este pequeno peregrino, das raízes da nossa brasilidade? Fui longe, mas também me senti aliviada porque afinal a escola estava fazendo um trabalho interessante de identidade, mostrando artistas criados em uma terceira cultura. O dia acabou e quando eu já estava quase dormindo, Vicente me chamou: “lembrei! O artista era o Kandinsky.”.

Acontece que Kandinsky era Russo. E segundo consta, só saiu da Rússia para morar na Alemanha com 30 anos de idade.

Já ele foi gerado em São Paulo, nasceu em Lisboa, mudou para Bali, Singapura e agora Tailândia. Esteve no Rio de Janeiro não mais do que 4 ou 5 vezes e, para nossa alegria, escolheu se apresentar como carioca. Fala chiado como o pai, tem o “erre” macio,  é “marrento”, cheio de gingado, fanático por futebol e a-lu-ci-na-do pelo Flamengo. Para vocês terem ideia, ele descobre coisas importantes sobre a vida quando compara o que estiver ao redor com a realidade rubro-negra: “Mamãe, você sabia que você é mais velha do que o jogador mais velho do Flamengo?”.  Naquele dia ele começou a se preocupar com a minha idade.

E como somos uma família de preocupações nem sempre tão pertinentes, fiquei ali andando pela casa em volta da mudança de nome. Pensando também em como anda esta questão da identidade dentro dele. E Vi estava reflexivo, queria voltar ao tema: “Mamãe, é sério, sério mesmo. Eu quero muito mudar de nome. Vicente é horrível!”. Fingi que não estava ofendida e resolvi entender a questão a fundo. Mas o negócio foi ficando pior, porque ele estava mesmo desconsolável: “Eu sei que vocês gostam, mas eu detesto o meu nome. E agora, como eu posso ter um nome, para o resto da minha vida, que eu detesto?” Eu não saberia dar a ele uma resposta precisa, cheguei a pensar que ele poderia se aconselhar com a avó, que nunca gostou de se chamar Dagmar. Mas antes de pegar o telefone, resolvi perguntar qual ou quais os nomes que ele gostaria de ter. Esperava por tudo: Vincent, Piranam, Peter, Mathew, Ketut ou até Wassily. Mas ele foi categórico: “eu quero me chamar RODINEI”. E enquanto eu não me continha em gargalhadas, defendeu “Rodinei é lateral-direito do Flamengo. Um craque, tá certo?!

Com as passagens em mãos para visitar logo logo a terra brasilis e os dribles do nosso Rodinei pela casa, posso dormir mais tranquila: nossas raízes brazucas não se quebrarão jamais!

 

 

* Third Culture Kids é um termo criado em 1950, pela socióloga-antropóloga Dr. Ruth Hill Useem. Ele define crianças que acompanham seus pais a outras culturas, formando uma terceira cultura – aparte da origem de seus pais e também da cultura de onde estão vivendo – entre crianças que encaram os mesmos desafios de recriar seu próprio senso de comunidade.

 

Comentários

  1. Bia adorei! Como sempre. Uma delicia ter olhos para a vida que se processa a cada minuto. Rodinei Vicente ainda vai rir muito disso . Uma delicia este tuga carioca, de olhos vivos e atentos! Cheio de histórias e conversas infindáveis. Me lembrei da sua conversa comigo no banheiro e de como seria muito bom morar comigo, com motivos fundamentados ( rs!!)…. e me encanto com esta lembrança. Não há dia que não o veja ali, ao lado, contando suas histórias. Rodinei Vicente, vc é uma delicia!!! Ainda mais relatado por olhos tão precisos quanto os de sua mãe ! Bjs Querida

  2. Bia querida

    que alegria sempre te ler. Tenho profunda admiração pela mãe que sempre foi e estou ansiosa para conhecer o Rod e reencontrar você, João e Bento.
    Um beijo imenso e saudoso

    • Super Rita,
      que bacana você aqui no blog comentando. Obrigada. Quero muito ver vocês, sei que andam aprontando muitas coisas boas. Logo logo pintamos na paulicéia, vamos ver se conseguimos dessa vez?

      Muitos beijos para vocês três.

    • Carol querida,
      essa criançada dá muito pano pra manga. Obrigada pelo carinho. Como estará a sua vida de mãe? São muitos anos sem saber de você. Beijo grande.

  3. Bia querida,muita saudade!!
    Adorei o que você escreveu .Você leva o maior jeito.
    Lembro da vila e de Huston, uma menininha e hoje esta
    mãezona tao dedicada!!
    Quando vierem para o Brasil ,quero muito vê !os!!!
    Um beijinho para você e para toda turma!!
    Tia Dora.

    • Oi tia querida,
      tanto tempo sem te ver. Que saudades. Obrigada pelas palavras e pelo carinho de sempre. Quero ver vocês também.

      Beijos em você e no tio Mario.

  4. Ahhh que delicia teus textos! Alguns me ajudam muito nesta fase de adaptação à uma nova cultura. Difícil, mas encantador! E olha que estou em um pais discamos latinos do mundo rsrs. Se eu tivesse a idade do Vicente talvez também quisesse mudar de nome, porque Karina aqui é adjetivo qualitativo (pelo menos é para atribuir a algo bonito, interessante). Vicente vem de vencedor, assim como o nome Rodinei significa para o seu pequeno driblador da realidade :).

    Um grande beijo Bia. Se o acaso não nos fizer encontrar novamente em algum lugar do mundo, estarei aqui na Sardegna feliz em receber você e sua família!!!

    • Oi Karina,
      Que delícia saber de tudo isso. Primeiro desta sua vida nova, depois que está seguindo o blog e gostando. Acho que vamos ter muito para trocar nesta vida de estrangeira. Adorei essa ideia de driblador da realidade. De certa forma, sempre precisamos ser um pouco. Ou não?

      Beijo grande

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