Solidão ou Solitude

Um ano de maternidade, um ano e meio vivendo longe do meu país natal.

Sempre gostei muito de pensar sobre a diferença destas duas palavras, e seus significados.

Encontrei uma vez esta frase:

“A linguagem criou a palavra solidão para expressar a dor de estar sozinho. E criou a palavra solitude para expressar a glória de estar sozinho” (Tillich)

Diria que são sentimentos ambíguos, porém semelhantes, tudo depende da forma que sentimos, ou melhor, como sentimos quando nos encontramos só, às vezes literalmente só, às vezes é um sentir-se só mesmo estando acompanhada.

Tenho vivido tudo isso muito intensamente, principalmente porque a maternidade sem dúvida nos provoca sentimentos dos mais profundos, pelo menos assim tem sido para mim.

Comparar a mudança do Brasil para Portugal com a mudança de me tornar mãe, a segunda sem dúvida tem provocado em mim muito mais desafios, porém viver as duas mudanças praticamente ao mesmo tempo, deu uma misturada e talvez  uma amplificada nas emoções. Só agora, tenho me dado conta de tudo que vivi neste 1 ano e meio em Lisboa.

Muitos me perguntam: Já se adaptou em Lisboa? Eu nunca sei bem o que responder, porque de fato ainda é confuso, hoje respondo, ainda me adaptando. A vida me colocou este desafio e eu aceitei, escolhi fazer as duas viagens juntas e portanto elas se misturam, a viagem de deixar nossa terra natal já mexe demais com nossa identidade. Quem sou eu mesmo? Que valores sustento comigo? O que quero deixar para trás, e literalmente, que objetos fazem sentido seguir comigo neste momento? A outra viagem é a maternidade, que também traz um tanto de perguntas, algumas bem parecidas com estas, no sentido existencial mesmo e outras meramente práticas que se eu começar a escrever aqui, certamente apareceriam mais de cem. E é exatamente neste ponto que a solidão e a solitude se intercalam para mim.

Sempre acreditei que educar um filho é uma das tarefas mais difíceis que existem na vida e de fato só estou confirmando a minha crença. Porém criar nossa Maria distante das minhas raízes, da família, dos amigos, me trouxe no início uma solitude. Quando Maria nasceu só queria silêncio, minha casa e a conexão com minha filha, não me sentia em condições de dividir nada com ninguém, todo e qualquer movimento eram em função dela e do que me dava energia, tive meus pais aqui pertinho e isso foi um apoio emocional bem importante. Sem querer, ter tido Maria aqui, do outro lado do oceano, me deu tudo isso, e hoje posso dizer que foi maravilhoso conseguir “sobreviver” ao puerpério, porque na solitude a intuição nos guia, nos dá força, nos empodera, esta palavra que tanto tenho escutado. 

Por outro lado, o tempo foi passando, essa tal “hibernação” dos primeiros meses de Maria foi cada vez se transformando no oposto, eu queria minhas amigas, família, mães de crianças da mesma idade, e aí aparece este sentimento de solidão, que cresce e muito mais ao estarmos em terras ainda pouco conhecidas. Lógico que a tecnologia ajuda um pouco, mas quero abraço, quero brincar junto, quero parceria no cotidiano e é assim que me encontro no momento. Me sinto só! Nas questões mais banais, como nas mais complexas: Amamentação, o que é melhor para ela e para mim? Continuo amamentando até quando? O tal dilema de ensinar a dormir só no quarto dela, enfim, as pequenas grandes dúvidas de uma mãe de primeira viagem que ainda não encontrou um pediatra que adore, que já sente vontade de sair de noite sem hora para voltar e não dá, aqui não tenho os avós da Maria para apoiar e ainda nenhuma amiga íntima que aceite o desafio. Tinha a ilusão de que levar Maria às pracinhas lindas que há em Lisboa me aproximariam de mães, eis que me deparo com um problema: pracinhas vazias! Onde estão as crianças até às 17h que não vejo ninguém? Todas em creches, é o que tenho ouvido.

Enfim, ainda me sinto num enorme processo de adaptação, descobrindo a cultura deste novo lugar e me descobrindo mãe.

Diria que continuo na reflexão da solitude e da solidão nesse processo de tantas mudanças que venho vivendo.

Termino com uma frase de Jung: Ninguém se torna iluminado por imaginar figuras de luz, mas sim por tornar conscientes a ESCURIDÃO.

Penso que a solidão e a solitude passam um pouco por este lugar, da luz e da escuridão, na eterna gangorra da vida.

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