Sair por que?

Tem os que saem porque receberam uma ótima oferta de trabalho de sua empresa, geralmente uma multinacional. São os sortudos. Já saem de casa com visto de trabalho. Tão sortudos que são bem poucos, talvez quando façamos a estatística de quem são os brasileiros que se mudam para o estrangeiro, estes não cheguem ao um por cento.
Tem os que conseguem uma bolsa para o doutorado ou pós-doutorado no exterior. Estes parecem que são muitos, porque são os nossos amigos no Brasil. São os nossos colegas de universidade. Vêm para um ano ou dois. Escolheram bem o lugar para onde iam, mas apesar do seu enorme esforço em aprender a língua do país, quase não têm amigos locais. Seus amigos são quase todos estrangeiros como eles. E dependendo do lugar, usarão apenas o inglês mesmo. Estão de passagem, sabem disto e aproveitam ao máximo. Não existe nada melhor que ser estrangeiro com data para acabar. Parece que são muitos, mas são apenas um pouco mais numerosos que o primeiro caso citado.
E aí tem a grande massa de brasileiros no exterior: os que vieram para trabalhar. Eu poderia afirmar, mesmo sem ter os números que comprovem minha tese, que pelo menos um 60% dos brasileiros que imigraram estão nesta categoria. Ou mais. Alguns podem ter o terceiro grau completo, mas a maioria ficou mesmo no segundo grau. Ou nem isto. São os órfãos de país. Sem perspectiva no Brasil, ou pior, com a perspectiva de um trabalho mal remunerado, poucas oportunidades, hospitais públicos sempre lotados, péssimo transporte, violência na porta de casa.
Estes não escolhem o país ou a cidade para onde vão. Viajam para onde já tem um familiar ou amigo. Alguma referência. Por isto é que aqui em Zaragoza, onde vivo, há tantos goianos. Um traz o outro. Depois podem mudar de cidade, mas primeiro sempre irão onde uma cara amiga os receba. Entram com visto de turista e em três meses já serão ilegais ou “sem papéis”. Vão passar maus momentos por isto. Claro que depende muito da legislação de cada país, mas uma coisa é igual em todo lugar: estrangeiros sem documentos fazem os piores trabalhos. Mesmo assim, quando você pergunta se gostariam de voltar ao Brasil, te dirão que não. Só de férias. Férias que desfrutam só depois de muito tempo, quando já conseguiram algum visto que permita sair e voltar para o país onde estão. Estrangeiro sem papéis come o pão que o diabo amassou, mas não tem país para voltar.
Aí tem os casos avulsos. Mulheres que como eu casam um estrangeiro (curioso que o contrário é muito mais difícil de acontecer: uma estrangeira que case com um brasileiro. Ainda não entendi este fenômeno). Conhecemos-nos no Brasil e depois de um namoro de idas e vindas, decidimos que o mais prático era morar na Espanha. Nunca pensei em viver aqui, nunca foi meu sonho sair do Brasil. Simplesmente aconteceu. E como eu, muita gente. Alguns porque tem direito a uma cidadania por seus avós ou pelo gosto da aventura, ou pela razão que for. E obviamente é tudo uma grande generalização.
No meu caso, o sonho de voltar está cada vez mais longe. A vida se organizou aqui. As crianças estão crescendo, vivemos tranquilos. Por que mexer em time que está ganhando? Mesmo que fique sempre o desejo de um dia voltar e que, nos dias ruins de saudade, quando as fotos de Ipanema banhada pelo sol inundam minha timeline, tenha a absoluta certeza que uma pessoa só pode ser plenamente feliz no Rio de Janeiro, a gente vai ficando.
Mas por que conto tudo isto? Porque em um momento em que parece que muita gente está fazendo a mala, três amigas escreveram coisas parecidas nas suas redes sociais sobre este tema. Duas contando porque não pretendem deixar o Brasil e uma justificando porque saiu.
A primeira foi bem explícita, gerou polêmica e muitos comentários, porque deu uma cobrada. No seu pequeno texto, diz que só sai do país quem pode. E ela estava lá para lutar pelos que não podem ou não tem a escolha de sair. Fazendo com que muita gente que saiu tenha respondido com sentimento de culpa, justificando seu motivo para viver fora, mesmo que a autora tenha respondido que não era sua intenção. Mas a cobrança estava bem ali. Pensei em responder no momento, mas achei que poderia não ser bem entendida. Rede social tem este problema.
Aí uma amiga querida coloca algo parecido. Questionada porque não tinha deixado o país, ela responde com um texto. Resumindo, a autora argumenta que vivemos um período de luta feroz. Quem acredita nos valores do feminismo, quem luta contra a homofobia, quem quer direitos humanos para todos os brasileiros, está convidado para a batalha. E você sabe: “Brasil, um filho teu, não foge à luta”. Um momento mais que importante. Precisamos estar atentos e fortes. Que bom que tem gente que pensa assim!
A terceira fez um texto para comunicar a chegada em terras estrangeiras. Um texto simpático, mas que me chamou atenção por enfatizar que não abandonava o barco do Rio Janeiro pelo medo à violência ou à crise e sim porque era um projeto de vida familiar. Chamou minha atenção esta ênfase. Talvez porque ainda tinha o primeiro post na cabeça e parecia que agora tenhamos que explicar porque saímos do Brasil.
Ler os três pequenos textos na mesma semana me deu muita vontade de escrever. Quem sai do Brasil não é a classe média desiludida. Ou não apenas. Claro que estes escrevem melhor e fazem mais barulho, mas quem realmente sai em massa vai trabalhar como garçom, faxineira, pedreiro. Isto os que têm sorte. Alguns vão se prostituir. Homens e mulheres. Pode que passem a ser escravos(as) de alguma máfia. Vão ficar anos sem ver a família. Sofrerão com o frio e demorarão muito para aprender outra língua. Serão roubados e não poderão denunciar porque para a lei, eles(as) não existem.
Ser estrangeiro não é fácil para ninguém, mas pode ter certeza que para alguns é muito mais difícil que para outros. Em comum temos todos o desejo de uma vida melhor. E, em um mundo em que sonhamos que nenhum ser humano seja considerado “ilegal” apenas por estar em outro país, é também um desafio. Viver em outro país pode ter algumas vantagens, mas está longe de ser fácil. Muito menos é uma desistência da luta diária por um mundo melhor e mais humano. Apenas o campo de batalhar é outro. Por isto não se engane pelas fotos. A vida real não sai na rede social.

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