Eu fiz o caminho de volta. Me julguem

Fazer o caminho de volta não é simples.

Em especial quando o destino é um estado falido, com ex-governantes presos por corrupção, com a principal universidade pública quase fechando, com uma guerra de facções do tráfico acontecendo nas esquinas da elite privilegiada, bem ali, do lado da sua casa. Ainda assim, não foi difícil decidir voltar quando o telefone tocou e surgiu uma oportunidade de um projeto envolvendo campos que eu há tempos queria abraçar: terceiro setor, educação, cultura, tecnologia e arte.

Resposta dada, começamos o desenho da volta. Casa, escola, transporte. Nada foi simples. Mas, com alguma maestria adquirida na gestão de uma família mosaico de seis pessoas, conseguimos traçar um planejamento de curto prazo, prevendo alguma rede de proteção para o imponderável e um orçamento para a ponte aérea que garantisse a sobrevivência da meio família partida ao meio (Daniel e Preto seguem em Campinas).

O mais complexo foi achar respostas para aqueles que, estupefatos, não conseguem entender o tal movimento de retorno. Alguns perguntam diretamente, outros emudecem em um silêncio crítico. Tem os que acham que temos algum motivo a esconder e há ainda os que respondem algumas respostas por mim:

“Ah, seus filhos estavam no Rio”.

Sim, há dois anos e meio, quando me instalei em Campinas ele não quiseram vir comigo e optaram por morar com o pai. Sim, a possibilidade de estar com eles de novo no dia a dia pesou na decisão. Mas foi por isso também, não só por isso.

Ah, vocês não se adaptaram em Campinas”. 

Realmente, Campinas não é uma cidade simpática. Mas, depois de dois anos, construímos uma rede de amigos queridos e verdadeiros, daqueles que dá para ligar mesmo no meio da madrugada e dos quais sentiremos muita falta e que vamos arrastar para o Rio sempre que possível. Também construímos relações profissionais e até incursões acadêmicas na universidade da Princesa do Oeste. Resposta errada.

São Paulo é muito diferente

O que é uma mudança para 500 km de distância do lugar onde você vivia comparada com as enfrentadas pelas amigas que estão lá do outro lado do mundo em culturas bem mais complexas e diversas da nossa? É diferente sim, mas também não foi por isso.

Lendo um texto que apareceu na taimilaini da rede social dia desses, logo depois de uma pessoa que me conhece pouco sugerir porque eu não ia tentar a vida em Portugal, veio uma outra resposta que já vinha sendo tema das sessões de terapia desde a volta: agora que vai começar, por que vamos fugir?

Sim, a cidade, o estado e o país em crise precisam mais que nunca de pessoas como nós, ali na linha de frente, resistindo e transformando com nossos atos, escolhas e, mais que tudo, com nossa presença. Não julgo, acuso, nem questiono quem decidiu sair, seja do jeito que foi, nem quem não tem vontade de voltar. Nem sei que decisão tomaria se outras possibilidades surgissem para nós. Mas sei que em nenhum lugar desse planeta a vida anda fácil. Para ninguém. Então que lutemos com dificuldade perto dos afetos, com nossos repertórios e com o agora que temos.

 

 

Comentários

  1. Lindo seu artigo, Raquel. quanto mais conseguirmos não nos afetar pelas pessoas, as vezes até queridas, que metem o bedelho em nossas vidas, melhor para nós !!!
    Você aproveitou muito bem isso para escrever seu lindo texto !!!
    Parabéns e muito boa sorte !!!!

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