Depois da chuva

“A cidade dos anjos, a grande cidade, a residência do Buda Esmeralda, a cidade inexpugnável (de Ayutthaya) de Deus Indra, a grande capital do mundo dotada de nove jóias preciosas, a cidade feliz, abundante em um enorme Palácio Real que assemelha-se à morada celestial, onde reina o deus reencarnado, uma cidade dada por Indra e construída por Vishnukarn*”

O que se lê acima não são impressões minhas, nem um trecho retirado de livro, mas a tradução para o português do nome efetivo da cidade onde hoje vivemos, aquela que conhecemos como Bangkok. Descobri recentemente que Bangkok funciona quase como um pseudônimo, um nome alternativo ou fictício, criado para quem vem de fora. Na versão coloquial, em tailandês, Krung Thep é a alcunha da capital, ou a abreviação daquilo que mais parece um mantra ou uma missão**.

E foi Sua Majestade, o Rei Bhumibol Adulyadej, quem esteve à frente desta capital nos últimos 70 anos, cumprindo a superlativa missão de comandar este reino. E, aos olhos do povo, o fez com louvor. “Ele foi tão longe que desenvolveu uma tecnologia para fazer chover nas regiões agrárias em época de seca.”, Assim me exemplificou um amigo. Adorado como um pai, ou mais do que isto, um semi-deus, faleceu em outubro do ano passado, sendo até hoje o monarca que reinou por mais tempo em toda a história recente da humanidade.

Chegamos a Bangkok, ou Krung Thep, em maio de 2017, embora no calendário local já fosse maio de 2560. Me lembrava de ter conhecido, anos antes, um país mais colorido do que pude ver nos primeiros meses de mudança, mas confesso não ter imaginado que boa parte da população ainda estivesse usando luto. Neste outubro vivemos o primeiro aniversário de morte do rei e a semana de sua cremação. Conforme o protocolo, passamos, nós também, todo o mês de luto. Vicente, que em Bangkok voltou para a escola, advertia pelas manhãs: “Gente, não se esqueçam das roupas pretas ou brancas. Não podemos ser desrespeitosos. Aprendi na escola que o rei foi muito bom e importante para o povo.” Cinco minutos depois, lá vinha ele com a camisa do Brasil, alegando que o short da seleção era branco. “E a do Flamengo? Tem vermelho, mas também tem preto, ó”. João e eu silenciamos e entendemos que mesmo estando em escola internacional, antes de mais nada, havemos de respeitar a percepção, a história e a cultura locais.

A cerimônia do funeral se esticaria por mais de cinco dias na última semana do mês. Três deles seriam considerados feriados. Na escola não haveria aula. A comoção era sentida por todos os cantos durante o mês inteiro. As músicas tocadas nos centros comerciais, salas de espera de consultório e táxis eram composições do rei ou feitas para o rei, que também era músico. As exposições dos museus e shoppings mostravam a sua vida, os canais de TV e websites faziam suas transmissões em preto e branco.

Na semana do último adeus a este rei, achamos que seria boa hora para a nossa retirada. Afinal, essa despedida supunha a presença da família mais íntima, os seus súditos. Fomos para o sul aproveitar a natureza exuberante da região. Assistimos pela tela do computador parte das monumentais procissões, onde mais de 250 mil tailandeses se amontoavam ajoelhados na calçada, admiravelmente organizados para dar seu último adeus. No dia em que a fumaça do Crematório Real se dissipou pelo céu, nada parecia seguir seu ritmo normal. Na praia nenhum barco saiu para os habituais passeios, a eletricidade caiu algumas vezes, bebidas alcoólicas foram suspensas e até o email da pousada misteriosamente parou de funcionar.

Chegamos de férias faltando dois dias para terminar o mês. Nós, com os olhos lotados de beleza tropical, saímos de casa tímidos, ainda incertos sobre as cores que poderíamos trazer do sol. Outubro ainda estava lá: preto, cinza e branco. Cheguei a imaginar que este caminhar monocromático se apossaria de tudo e de todos. Mas novembro chegou. Um único dia depois daqueles tantos. E com ele veio a brisa, depois de uma longa temporada de monções, limpando pouco a pouco o céu invariavelmente montado de chuva. Camisas tipicamente cor de rosa já brotam aqui e ali, a senhora da banca da esquina voltou a oferecer bananas e Pink Dragon Fruits em sua camisa tigrada e Vicente finalmente pôde tirar da gaveta sua tradicional camisa do Brasil.

Tempos onde esse povo, orfão de um herói desencarnado, poderá aproveitar a herança de quem lhes ensinou a fazer chover. Tempos onde nós, por outro lado, vamos aprendendo a respeitar um culto que nunca poderemos compreender em sua essência mais profunda. Como nunca soubemos venerar deuses vivos, seguiremos com fé na vida e habituados à certeza da incerteza.

 

*Esta tradução para o português foi feita por mim, com base na tradução do nome da cidade feita para o inglês.

** O nome oficial da cidade é tão grande que sua versão traduzida para a língua inglesa está no Guiness, o livro dos recordes, como o nome mais longo do mundo.

Comentários

  1. Delicioso acompanhar o espaço, o tempo vivenciado sob a lente do seu relato. Observar o Vicente, com sua forma criteriosa de fazer parte do grupo, deste mesmo grupo que lhe deu acolhida e o recebe com a camiseta do Brasil. Que bom que vocês vestiram os olhos de exuberante verde, para assim, compreender melhor a orfandade de quem ousou, após os ventos, vestir a camisa tigrada para oferecer bananas com fé e certeza de chuvas, num futuro incerto. Vida, minha querida. Vida!

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