Tempo, tempo, tempo

Setembro no hemisfério norte significa volta à rotina. Fim das férias de verão, volta à escola e ao trabalho. E, uma vez mais, a ginástica para conciliar os horários das crianças e dos adultos, sempre complicado, e mais ainda se acrescentamos as aulas de esporte, que este ano os meninos decidiram fazer. Sem esquecer o tempo para fazer os deveres de casa e para brincar, seja na rua ou em casa, mas brincar simplesmente. Vamos nos dando conta que não há tempo para tudo. Pelo menos não tudo ao mesmo tempo.
Algumas mães me perguntam espantadas por que meus filhos de 6 e 5 anos não frequentam nenhuma escola de inglês? Porque me dá pena, respondo. As crianças ficam na escola de 9h da manha a 16h30 da tarde. Depois disto, só de pensar em levá-los a outra sala de aula, me dá tristeza. Por mais que me digam que as classes para crianças são divertidas e lúdicas. É outra sala. É estar outra hora entre quatro paredes. Além disso, os meninos têm aula de inglês todos os dias na escola. Deveria bastar, não? Pelo visto não, é o que dizem, e parece se você não levar a criança para aprender alguma coisa a mais, ela não poderá competir com as outras quando chegar a hora de trabalhar. E a culpa – nossa eterna companheira – começa a se abater sobre nossos ombros. Preparar as crianças para o mercado de trabalho significa mantê-las em salas de aulas. Não é isto que quero para os meninos.
Até o curso passado, fora da escola, os meninos faziam natação e nada mais. Porque consideramos que saber defender-se na água importantíssimo para sua segurança. Este ano, Carol me pediu para fazer ginástica rítmica com suas amigas de classe e Hugo queria fazer algum esporte coletivo. Futebol seria o mais fácil, mas entre todos, optamos pelo rugby. Um esporte pouco comum e por isto mesmo menos competitivo que o futebol e mais solidário. Além de permitir que meninos e meninas joguem no mesmo time, coisa que me gostou especialmente.
E nada mais. A natação vai esperar até o próximo verão. Um esporte de cada vez. Adoraria que as crianças também aprendessem algo artístico, um instrumento musical, ou desenho, ou dança. Mas isto significaria mais tardes ocupadas e menos tempo para brincar ou não fazer nada. Mais ginástica para nós pais para levar e buscar. Mais tempo fazendo coisas e menos tempo para nós juntos.
O tempo da infância parece que se esvai por entre nossos dedos. A ansiedade de proporcionar coisas e oportunidades transfere para nossos filhos pequenos uma vida de adultos, cheia de horários e obrigações. O tempo, que deveria ser nosso aliado, passa ser um inimigo a ser combatido e buscado. Preciso de tempo. Onde está o tempo? Não tenho tempo. Vamos ocupar o tempo. Quando o que muitas vezes queremos é simplesmente dar-nos um tempo.
Já virá o momento para as aulas de violão ou piano ou o que for que escolham. Já virá o momento que o tempo feche um ciclo sobre estes pequenos seres. Outra etapa será. Outras escolhas. O futuro não precisa começar hoje. Quanto tempo o tempo tem? Para eles, aquele que nós quisermos dar.

Comentários

  1. Oi Rosana, meus pais nunca colocaram, nem eu nem minhas irmãs, em curso de inglês. Já mais velhas fizemos intercâmbio e somos fluentes. É puxado isso de ter mil atividades e pouco tempo livre, pouco tempo de familia. Dá um chega-pra-lá na culpa. Esse tempo da infância não volta.

Comentar