Religião na escola

Esta semana o Supremo Tribunal Federal aprovou o ensino confessional nas escolas públicas brasileiras. O que significa que a partir do próximo ano escolar, as escolas públicas podem oferecer de forma facultativa o ensino de determinada religião. Não história da religião e sim, a crença. Com orações, missas ou cultos. Não sei que religião vão escolher para ensinar em cada escola, mas posso imaginar que será cristã.
Um estado laico, como o brasileiro, deveria ensinar religião para suas crianças? Creio que esta é uma questão que todos precisamos refletir, pelas importantes implicações que podem ter. E como é em outros países?
Na Espanha, onde vivo já há 12 anos, o estado também é laico. Apesar disto, aqui se oferece a disciplina religiosa nas escolas públicas. Uma disciplina que conta nota e pode reprovar. Em teoria, se ensinaria qualquer religião. No fim do ano escolar, recebemos uma circular do colégio perguntando que religião gostaríamos que fosse ensinada pela escola: católica, muçulmana, judaica ou protestante. Muito democrática a circular, mas na verdade é pura demagogia. A grande maioria das famílias espanholas é católica, a possibilidade que se ensine outra religião é nenhuma.
E para quem é de outra religião ou simplesmente não quer que seus filhos recebam ensino religioso? Nestes casos, podemos optar pela classe de Valores para a Cidadania. Nesta classe, se ensinam valores éticos, por exemplo, contra o racismo, e coisas mais básicas, tipo como se comportar na cidade para uma boa convivência entre todos.
Desde sempre, optamos que nossos dois filhos frequentem a classe de Valores para a Cidadania e não a de religião. Mais ou menos, metade das crianças da sua sala fazem o mesmo. São os filhos de pais que como nós são agnósticos ou ateus e os filhos de pais de outras religiões distintas da católica. Então estão todos os muçulmanos e os chineses, basicamente. Na nossa escola, não sofremos nenhuma pressão por matricular os meninos na aula de ensino religioso. Mas conheço outros pais de outra escola pública, que sim, já sofreram. A diretora vem “explicar” sobre como a classe de religião era muito melhor que a outra. Neste caso, os pais se mantiveram firmes na sua decisão, mas suponho que não será sempre assim.
Este é apenas um exemplo de como a religião está metida dentro do estado supostamente laico e, por conseguinte, dentro da escola pública. As crianças tem a mesma quantidade de horas de ensino religioso por semana que de ciências sociais e da natureza. Música e arte têm, por exemplo, a metade deste tempo.
Na minha opinião, se uma família deseja que seus filhos recebem o ensino religioso, deveria optar por uma escola de ensino confessional. Nós escolhemos a escola pública justamente por não querer este ensino religioso para nossos dois filhos. E a coisa não vai somente sobre as aulas. Também tem as festas de Natal e Páscoa. Embora nestes casos, algumas escolas públicas optaram por trocar os nomes. São chamadas de festas de inverno e primavera. Mas na nossa continuam a chamar de festa de Natal mesmo, com direito a presépio gigante montado pelos pais, concurso de presépios feito pelas crianças e festival de músicas natalinas. Neste festival, todas as crianças, independente de sua religião, participam. E sempre fico pensando na confusão na cabeça dos meninos e meninas chineses, por exemplo. Porque mesmo os nossos ficam confusos. Estão felizes porque é época de ganhar presentes, mas não sabem exatamente quem é este senhor que está na cruz.
O debate para tirar o ensino religioso da escola pública é constante, mas em pouco ou nada se avança. A influência da Igreja Católica no estado é decisiva para paralisar toda e qualquer mudança. E na prática o que temos são crianças confusas, perguntando quem tem razão: o professor que disse que a Terra tem milhões de anos ou a professora que disse que o mundo se fez em sete dias? Coisa que me contou a mãe de um amigo de Hugo. Outro perigo é a intolerância religiosa. Ensinar que só existe uma verdade, põe em risco a boa convivência entre tantos filhos de imigrantes do mundo todo.
Por isto mesmo, é muito preocupante que o Brasil dê este passo. Religião é algo muito pessoal e não deveria estar dentro do ensino. Ainda mais preocupante quando sabemos do avanço das religiões evangélicas e suas pautas conservadoras, como por exemplo, acabar com o aborto mesmo quando são permitidos por lei, como nos casos de estupro. Em absoluto sou contra a religião evangélica em si, mas não gostaria que ela tivesse este poder dentro do estado laico. Como diz um meme que circula pelas redes: não venha rezar na minha escola, que eu não vou pensar na tua igreja.

Comentários

  1. Muito boas as suas reflexões, Rosanne.
    Realmente é difícil acomodar todas as crenças no sistema público.
    Na Alemanha há, no promarii apenas as religiões católica e protestante como opções. A partir daí há tbem a chamada Ética.
    Acho que no Brasil, tiraram a religião do currículo por todas as razões que você mencionou mas ficou um vazio. Num país como o nosso, em que muitas crianças que frequentam. Escola pública serão educadas em todos os sentidos na escola, acho que traria um grande benefício para a sociedade a tal “Etica” que é, como vc disse, noções de como cisadania, de respeito ao próximo, de solidariedade, empatia, dos problemas e consequências que simples as ações egoistas, como jogar lixo na rua causam na vida das pessoas. Até o óbvio tem que ser ensinado e praticado por alguém para que se torne um hábito praticado por todos.

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