Fazendo “arte”

Toda criança apronta. Normal. Não seria criança se não aprontasse. Mas teu filho já fez uma daquelas traquinagens memoráveis? Daquelas de nos matar de vergonha? De desejar sumir? Sábado passado almoçamos com um grupo de amigos e, hora da despedida, enquanto os adultos estavam distraídos dando beijos, o menor da turma, de quatro anos, pegou uma pedra e fez lindos desenhos em toda a lateral do nosso carro. Pedra branca num carro preto, combinação perfeita para uma arte.
Os pais do menino não podiam acreditar. Mortos de vergonha, não sabiam como se desculpar conosco. Claro que vão se responsabilizar pelo custo de reparar a pintura, mas a mãe do menino estava inconsolável. E nós tranquilos. Primeiro porque quem dera que todos os problemas se solucionassem com o pagamento de uma franquia de seguro e dois dias sem carro. Segundo porque quem tem filho tem telhado de vidro: mais cedo ou mais tarde pode ser você que esteja se desculpando e tomara que seja com um amigo e não com um desconhecido.
Hugo e Carol ainda não me fizeram passar por isto, mas sim já fizeram das suas. Carol com dois anos jogou no chão meu celular recém comprado e passei quase um ano com a tela rachada. O sofá branco (também que ideia ter um sofá branco!) foi tão pintado que desistimos: compramos um preto de (falso) couro, que é só passar um pano molhado nos estrupícios. Nacho conta que ele aprontou muito mais. Pintou inteiramente o armário branco (branco definitivamente não combina com casa com criança) novinho das irmãs, que tinha acabado de chegar da loja. Numa distração da sua mãe, bebeu todo o xarope para tosse numa tacada só. A mãe teve que ir correndo para o hospital, onde lhe fizeram uma lavagem de estômago.
Outras mães amigas me contam algumas desventuras dos seus “anjinhos”. Uma teve a polícia tocando a campainha de casa, porque seu filho tinha tirado algumas pedras pela janela e amassado um carro na rua. Felizmente não acertou ninguém que passava. Imagina? Outra teve a cozinha inundada por cinco litros de azeite da melhor qualidade. Uma lembra com saudade de uma obra de arte comprada com esforço, que virou um monte de cacos na mao do seu filho de dois anos. Bem, não deixa de ser uma arte. Vamos pensar pelo lado positivo.
Mas nestes casos, com o artista, o que a gente faz? Dá bronca? Castiga? Dá risada? Chora? Conversa? Acho que este é o ponto importante, porque diz muito da forma como queremos educar nossos filhos. Mas também temos que ter em conta a reação do entorno da criança, porque pode que a liberdade que damos em casa não seja bem recebida na casa de outras pessoas e nossos moleques podem passar a ser “personas non gratas” em alguns lugares, até mesmo em casa de familiares. Se somos contra o castigo severo, também temos deixar claro que não estamos felizes quando eles façam algo de errado e que entendam o por quê. E que, definitivamente, algumas coisas não podem fazer na casa dos outros.
Educar sempre, educar todos os dias. Mas também sem perder a perspectiva da infância. E infância feliz de meninos e meninas levados também tem seus sustos.
E o teu menin@? O que el@ já aprontou?

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