Terror

Dizem que o Rio de Janeiro e Barcelona se parecem, mas não é bem assim. As duas têm mar e morros, porém não conheço dos carácteres mais opostos que o do carioca e o catalão. E no final das contas as cidades são as pessoas que nela habitam. Sim, Rio e Barcelona tem praia, mas – na minha modesta opinião – as semelhanças terminavam aí. Tristemente, estas duas cidades queridas se uniram esta semana pela violência e pela brutalidade. Pior ainda. Pelo uso da pior palavra que existe: guerra.
Todos sabem que o terrorismo escolheu Barcelona como alvo. Uma vez mais, utilizando um veículo como arma, terroristas atropelaram indiscrimidamente todos aqueles que passeavam por uma das principais ruas turísticas da cidade. Deixando 13 mortos no local e mais de 100 feridos. Entre os mortos, um menino de apenas três anos. Horas depois, tentaram outro ataque em uma cidade de veraneio – Cambrils- na província de Tarragona, ao sul de Barcelona, matando uma mulher aqui de Zaragoza, onde vivo.
Também se sabe que os terroristas planejavam um ataque muito pior, com um carro bomba. Por sorte, uma das bombas explodiu dentro da casa onde eles estavam na última quarta. O que precipitou a ação de quinta-feira. Prefiro nem imaginar o que provocaria uma explosão diante de algum dos monumentos mais visitados do país, como por exemplo a Catedral da Sagrada Família.
Já no Rio de Janeiro estamos tristemente mais habituados com a violência. 100 policiais mortos este ano. Quase 20 mil crianças sem poder ir à escola por causa dos tiroteios. Uma violência tão absurda que um jornal local decidiu declarar que estamos oficialmente em guerra.
Uma palavra tão horrível não deveria ser usada facilmente. Eu acredito muito nas palavras. Na força dos seus significados e no que elas podem criar e transformar. E por definição, os únicos aqui que estão em guerra são os terroristas. São eles que buscam o caos, o medo e o terror com seus ataques. Todo e qualquer pessoa que não compactue com suas crenças são seus inimigos. Isto inclui todas as famílias que passeiam e aproveitam suas férias de verão. Não importa sua religião, nem sua origem, nem a sua cor. Somos todos seus inimigos.
Quando um jornal importante da cidade diz que estamos em guerra, passamos a olhar as favelas da cidade como território inimigo. Em uma guerra, o que se busca é aniquilar ao inimigo. Será que é isto que queremos? Queremos acabar com todos os morros da cidade? Por outro lado, será que o traficante com um fuzil na mao quer o caos e a destruição que quem está no asfalto? Terminaria sem clientes.
Usar a palavra guerra dá aval para uma série abusos que não deveríamos estar dispostos a admitir. Também reconhece uma legitimidade ao tráfico, que não deveria ter. O que não significa que a violência gerada não seja inconcebível e não deva ser combatida. Queremos viver sem medo. Queremos exercer o direito de ir e vir na nossa cidade. Seja ela qual for. Estamos realmente cansados de ver a violência ser usada como arma política, porque quem mais sofre com ela é quem está mais perto.
Enquanto que aqui na Europa simplesmente não queremos ser sorteados nesta loteria do terror. Este não será o ultimo ataque. Pode acontecer em qualquer momento e em qualquer lugar. Todos as forças de segurança do estado trabalham para que não volte a acontecer. Mas parece muito complicado prever quando um louco possa pegar um carro e atropelar pessoas na rua.
Talvez este seja o texto mais desanimado que já escrevi para o Mães em Rede. Que podemos fazer além de contar com a sorte? Que podemos esperar para o futuro dos nossos filhos? Será que a violência – venha de onde venha – tem um fim? Perguntas que me faço todos os dias. Mas antes de tudo penso na força das palavras: terror, medo, guerra. Que não nos deixemos dominar por elas. Que não abdiquemos de nossas cidades. Porque quem cria filhos necessita sempre ter esperança.

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