Em 2560.

Moramos no final de uma rua sem saída, cercados de muito verde na janela mais alta em que já vivemos (7o andar pode ser altíssimo para quem nunca morou em prédio com elevador) e segundo as crianças, estamos perto do céu. E às vezes até acho que estamos, mas vivemos mesmo a cinco minutos de uma avenida super movimentada, na hiperativa cidade de Bangkok, que segundo a revista Forbes, foi a cidade mais visitada do mundo em 2016, seguida por Londres e Paris.

O Budismo é a religião oficial do rei e da maioria de sua população (93%). Consequentemente, vivemos em um novo calendário, estamos no ano de 2560. Um “salto” inesperado no tempo, já que a era de Buda começou 453 anos antes do calendário Gregoriano. Aqui somos recebidos diariamente, em todos os cantos, com as famosas saudações de mãos em prece e sorrisos largos, que iluminam os rostos fortes e angulosos desse povo gentil, receptivo, atencioso, diverso e também reservado. Certamente serão eles, os tailandeses, os grandes responsáveis para que boa parte da população de estrangeiros não queira mais sair daqui.

Mas para nós, e especialmente para as crianças, não foi simples chegar. O choque da mudança era inevitável. O planejamento aparentemente perfeito de Singapura, com ruas calmas, limpas, calçadas largas, deslocamento simples, oferecia uma vida tranquila, com menos estímulos e interferências no planejamento da família. Esta era sabidamente uma realidade improvável, quase única no mundo, que em nada se compara à realidade nua e crua das ruas incomuns de Bangkok. Por outro lado, estaríamos nós tão prontos para a denominada terra do “homem livre”*, se não estivéssemos saindo da terra onde tudo tem que acontecer nos conformes?

Grande, caótica, congestionada e com uma explícita desigualdade social (novidade que salta aos olhos dos meninos, matéria para uma outra conversa), Bangkok não se oferece pronta, foi uma cidade construída e depois planejada. Ou seja, é desorganizada. E para que esta seja devidamente desbravada, há de se munir de coragem e se deixar perder pelas artérias mais profundas, porque mesmo que ainda não falemos quase nada dessa língua tão particular, há sempre um tailandês disposto a tentar te ajudar no caminho. E quando há boa vontade, a comunicação é uma possibilidade universal. A magia de Bangkok está nas ruelas, nos templos suntuosos, nos rituais, nos cafés, restaurantes, ateliers de artes e, para quem aprecia, nas noites eletrizantes. Excêntrica, vibrante e surpreendente, a capital ainda conserva muito da origem cultural tailandesa, orgulho de um dos poucos povos da região nunca colonizados por europeus.

No meio dessa conjunção de novas informações e sensações, nós já temos casa. Um ninho onde nos sentimos protegidos, ou como dizem nosso pequenos pássaros, perto do céu. Com um ninho começado, já era hora de recriar a nossa rotina. Quem precisa de dias mais previsíveis, já tem atividades. Quem precisa de férias, ainda tem um tempinho de curtição pela frente. A primeira leva de arroz com feijão já foi para a mesa, fizemos brigadeiro, pão-de-queijo, violadas com batuques. Os vasos estão compostos com lindas helicônias. Já temos a nossa biblioteca preferida, gostamos de ir ao Museu de Ciências, ao Planetário e pular em um dos vários trampolins da cidade. Já visitamos templos. Fizemos a nossa primeira viagem de trem pelas redondezas. Vimos Buda de ouro e de barro. Já passamos um sábado inteiro, só curtindo o nosso espaço protegido. A nossa nova casa.

Amanhã completamos dois meses de vida nova. Estamos caminhando lentamente, chegando com cuidado para que o chão não escape aos nossos pés, para que essa passagem não seja apenas um acumular de acontecimentos, mas se transforme em mais uma experiência dos quatro, mais um tempo para ser bem lembrado. Temos dias mais calmos, outros mais ansiosos, mudar tem seu preço, a gente sempre deixa gente por onde passa. E gente nossa é patrimônio inestimável. Mas estamos cada vez mais à vontade e em harmonia. Um passo depois do outro, lembrando que este reino é grande e que qualquer viagem de mil léguas começa bem aqui, debaixo dos nossos pés. E por mais que não controlemos ao certo onde vamos chegar, é importante estarmos atentos e por inteiro,  para juntos seguirmos sempre em uma direção que nos faça algum sentido.

 

*Thai, segundo alguns poucos escritos históricos, significa “homem livre” em tailandês. Sendo um povo de pouca tradição literária e uma cultura tradicionalmente oral, há quem discorde deste significado, mencionando que em aldeias menos influenciadas pela mídia, Thai signifique apenas homem.

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Comentários

  1. Bela descrição de mais uma mudança e com certeza de um novo desafio que só faz vocês crescerem juntos e ter como poucos, uma bagagem de vida e cultura que só acrescenta a vida de vocês tanta sabedoria para encarar os desafios que tem sido constantes nesses últimos seis longos anos em quatro países tão diferentes um do outro! Filha corajosa! Admirável! Sejam felizes !!!!Texto claro e bonito como sua essência!

  2. Essas experiências de construção de afetos que a vida nos oferece.Aproveite junto com os seus está possibilidade da Tailândia.

  3. Bia, querida, que delicia ler sobre sua vida, suas experiencias tao ricas.Como voce escreve bem… Dá pra sentir o movimento, o cheiro, a vida do lugar. Quanto conhecimento de varias culturas diferentes nesses anos. Que voces sejam muito felizes , vencendo os desafios e aproveitando cada momento com muita uniao e muito amor.Continue escrevendo esses textos maravilhosos. um beijo em cada um de voces .

  4. Bia, adoro essa sua capacidade de colocar os sentimentos em palavras, em cores, em sons, em cheiros! Essas experiências serão mesmo inesquecíveis!!

  5. Parabéns Bia, por mais essa sensibilidade q transborda de seu coração para a beira de uma ponta de lápis. Sempre muito prazeiroso ler seus textos e continue nos presenteando com eles, relatando assim, as surpresas de sua nova experiência de vida!! Beijo grande e muita luz à todos!! 💛

  6. Querida Boa, que boa notícia saber que estão bem e Sempre em grandes aventuras! Os meninos estão, de ano para ano, cada vez mais ricos, à vossa imagem e semelhança! Parabéns a toda a FAMILIA pelo espírito aventureiro, parabéns Bia por escrever tão bem! Obrigada por nos manter informados. Um abraço apertado e beijinhos aos meninos, com muitas saudades, especialmento do Bento😚

  7. Bia Querida, como sempre – uma delicia passear nas suas palavras. Adorei saber que vocês estão próximos ao céu, com condição de descer e observar todas as mudanças. Bjs para todos os passarinhos

  8. Bia querida, que texto da alma conversando cuidadosamente com outra alma!!!!
    Que beleza de respeito por tudo e por todos!
    Parabéns minha linda que escreve maravilhosamente bem !!!
    Te amo, te admiro, te respeito muito !!!
    Obrigada

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