A menina

As fotos que ilustram este post são da artista japonesa Chino Otsuka e me fascinam desde o primeiro dia que as vi. As duas meninas da imagem são ela mesma: quando era criança e já adulta. Ela se insere nas fotos da infância com tal maestria e delicadeza que parece que de fato estava lá. Estas fotos são parte de uma série autobiográfica chamada “Imagine Find me” (Imagina encontrar-me), onde ela realiza o sonho da volta no tempo, no encontro consigo mesmo. O que sempre me faz perguntar: mas como seria este encontro? Que diria? Que perguntaria? E vocês? Já se perguntaram como seria?
Creio que não contaria nada ou apenas algumas coisas. Para que assustar a menina, não é? Sem exageros. Mas por que seria impossível antecipar tantas coisas e evitar algum sofrimento também levaria embora outros momentos lindos. O que foi vivido é o melhor que temos. Não, esta viagem no tempo seria para ouvir, não para falar. Ou para ouvir, mas que falar. Para escutar a menina e lembrar como era mesmo este negócio de fazer pirraça, de querer mandar na brincadeira, de implicar com a irma, de brincar até as últimas forças do corpo e aí cair rendida na cama. Quem sabe assim, eu evitaria algumas broncas com o menino e a menina da casa, que correm, brincam, brigam e implicam.
Perguntaria como era mesmo este negócio do tempo, que sempre era longo e nunca acabava. Tudo demorava. Também como era isto de sempre estar sonhando com histórias. E onde será que foram parar os livros da Inspetora, lidos tantas vezes. Perguntaria de onde vem o medo às aves e falaria para ter cuidado em Copacabana, porque foi num caldo lá no Posto 4 que veio o medo das ondas grandes.
Não contaria que vemos muito pouco – mas muito pouco mesmo – as amigas mais queridas, que eram tão importantes. Mas poderia contar que outras tão amadas quanto nos acompanham. A vida é assim mesmo.
Acho que a menina não se surpreenderia da gente estar morando em outro país. Na verdade, ela até acharia normal. Surpresa mesmo é que até hoje ainda não tenha ido a Creta ver o Labirinto do Minotauro, tal como foi prometido no final do episódio do Sítio do Pica Pau Amarelo. A gente vai, menina. A gente vai…
Espero que a menina volte mais vezes. Para lembrar. Para aconselhar. Para que quando a calma termine com dois meninos de férias correndo pela casa, ela sussurre no ouvido:
“- Lembra quando a gente saltava de uma varanda para outra pelo parapeito do segundo andar?”.
Volte sempre, menina! Ou melhor, deixa que eu vou.

Chino Otsuka, na série Imagine Find Me

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