Recusei oferta de emprego

Estava na sala de espera do dermatologista para cauterizar “olhos de peixe” na sola dos pés das meninas, “molusco” na barriga do menino e no bumbum da menina mais nova. Meio da tarde. A criançada impaciente. O celular tocou com uma oferta de emprego (!!!!), horário comercial e duas viagens por mês nos fins de semana. Enfim autonomia financeira. Recusei imediatamente, nem pedi tempo para pensar. Nunca fui feminista, sempre adorei estudar e ler, me dedico com afinco a todo trabalho que sou capaz de fazer. Não sou feminista, sou capaz de aprender. Mas em momentos assim é a minha feminilidade o que mais conta, criar filhos, acompanhar na aula de violino, buscar na escola.

É verdade que tive a opção. O pai das crianças trabalha muito e me permitiu escolher ser uma profissional não tão bem sucedida, mas ser uma mãe satisfeita. Porque no fundo é esse o dilema das mulheres que decidem ter filhos: a divisão do tempo entre carreira e filhos. Dia após dia são recusas, medos, insegurança, críticas. Recusei o emprego. Não tenho como comprar um violoncelo novo pro meu menino que cresceu, mas posso convidar um amigo dele pra brincar aqui em casa com ele à tarde. Ele cresce me vendo segura, apesar das minhas inseguranças. “O ser humano é um animal que pensa muito”, ele afirma.

O meu menino vai fazer 9 anos. Na escola waldorf consideram a data fundamental, um marco, o rubicão, a queda do céu, não dá mais pra fugir, “vou crescer!!!” Ser adulto um dia e ter que tomar decisões, recusar um emprego, pedir alguém em casamento, decidir se compra um carro novo ou viaja pra Itália. Tudo fica sério, acabam as brincadeiras. A crítica, o julgamento, meus pais falham, eu vou falhar um dia, pode ser que fique sozinho, que não me sinta amado, respeitado. Meu filho vai fazer 9 anos e na escola waldorf plantam o trigo pra fazer o pão, construir um ninho é a tarefa de casa para o feriadão. Eu sou capaz de fazer, não só querer, é a lição.

Ser mãe tem sido o maior aprendizado da minha vida. O dia mais feliz foi quando escolhi o pai das crias. Apesar de tudo, dos fracassos, das perdas, das dores, está lá, afeto puro, dedicação, minha feminilidade não se enganou. Não sei se o telefone vai tocar de novo daqui a alguns anos quando eles crescerem. Não sei nada sobre o futuro, mas estou me esforçando para ser inteira no presente. Recusei o emprego formal, mas me apareceu uma tradução, que posso fazer enquanto eles jogam lince na mesa da sala ou correm com o cachorro pelo corredor. A vida não é perfeita, é só uma sala de espera.

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