A vida aqui

Esta semana comecei um texto sobre a escola dos meninos – um dos nossos temas fetiche no Mães em Rede – quando percebi que passei meu feriadão respondendo à perguntas de amigos e conhecidos sobre a vida na Espanha. Gente pedindo informação sobre viver fora, querendo sair do Brasil, cansados da política, da insegurança, cansados de não ter esperança no futuro. Tem também os amigos de amigos que já deram o salto e te escrevem para entrar em contato, conhecer gente, ainda perdidos nessa chegada.
Agora quem vem e quem já veio não é mais o jovem de 20 e poucos anos começando a vida. São pessoas que já passaram ou estão bem perto dos 40. Todos com filhos pequenos e dizem que saíram do Brasil por eles: os filhos. A violência assusta nas cidades grandes e pequenas e não estão mais dispostos a suportá-la, a achar que é normal dormir ouvindo tiros na favela. Todos tem título universitário e a maioria vem para fazer uma pós (com ou sem bolsa) e tentar ficar. Ou pelo menos, experimentar por uma temporada.
A pergunta é sempre a mesma: então, como é a vida aí?
Como é a vida aqui? Pergunta complicada, porque depende muito da expectativa de cada um. Mas vou tentar responder desde – obviamente – meu ponto de vista.
Há seis anos, quando nasceu meu primeiro filho, conversando com uma amiga queridíssima no Brasil, ela me perguntou se eu tinha ajuda em casa. Eu disse que tinha uma faxineira quatro horas por semana (o pai não é ajuda. Ele faz 50 % das tarefas do lar). Ela me respondeu que eu não iria conseguir. Recomendou-me que ao menos eu subisse a faxineira para dois dias por semana.
Eu não apenas não subi, como agora ela vem a cada 15 dias. Esta é a primeira diferença para a classe média brasileira: a vida aqui é bem mais simples. A casa não é tão arrumada. E se tem um dedo de pó na estante da sala e você tem outras prioridades neste momento, pois a poeira vai ficar onde está. E tudo bem. Não é um problema grave.
Mas a simplicidade não se resume a isto. Está por todos dos lugares. Na bicicleta para ir ao trabalho, nos aniversários comemorados no parque sem temas ou animadores e tudo feito por mim. Está nos espaços compartidos: na escola pública, no pediatra também do serviço público, que você não tem o telefone para ligar de madrugada. E também tudo bem. Se um problema for realmente grave, você vai ao hospital, não acorda ninguém de madrugada por uma febre.
Sair de noite como marido também é complicado. Babá não temos e pagar uma pessoa faz a noite ser bastante cara. Então, saímos apenas quando a avó pode ficar com os meninos e tentamos não abusar. No máximo um sábado ao mês. E sou super invejada pelas amigas sem avó por perto por conseguir fazer isto. Nos outros fins de semana, os programas são sempre diurnos.
A última vez que fui ao cabeleireiro foi no Natal passado e à manicure, nas férias no Brasil.
Se você que quer sair do Brasil está disposta a abrir mão de determinados confortos em busca de mais segurança para a família, venha. Porque não é fácil ser estrangeiro: tem que começar do zero, tem que aprender outra língua, tem que fazer contatos de trabalho. Por mais que você seja o máximo no que faz, aqui você só é mais um de fora. Isto demanda tempo e muito esforço. Mas com trabalho duro, paciência e insistência, a gente consegue. Mas se você não está disposto a abrir mão de determinado estilo de vida. Aí não venha. A mudança tem que ser completa. Fazer a mala é a parte mais fácil.

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