Patinho Feio na Páscoa

A chuva começou a cair fininha, outono. As folhas da jabuticabeira amareladas, da romãzeira, abandonadas. É a Páscoa que se aproxima e nos jardins das escolas waldorf as árvores balançam seus ovos de galinha pintados pelas crianças. Nas salas de aula a “mesa de época” lembra que é momento de transformar, lagartas de lã em seus casulos anunciam a borboleta que virá. Um bicho que rastejava pela terra ganhará o céu.

A verdadeira pureza não está apenas nos atos, mas também nos pensamentos. O esforço em afastar o mau pensamento nos aproxima da possibilidade de não cometer más ações. Corrupção, mentira, engano. Cientificamente comprovado que se acostumamos nosso cérebro à mentira, nos convencemos de que ela é aceitável, é o pós-fato.

Quem nem sequer tem o pensamento do mal já realizou um progresso no seu desenvolvimento humano, para quem afasta o desejo de parar o carro na vaga proibida, o progresso está por vir. E quem tem o pensamento de se aproveitar de uma situação causando prejuízo a outros e sente prazer com isso…bem…acordará na primavera ainda lagarta rastejante. A aparência de pureza não basta, é preciso a pureza de coração.

O patinho feio, puro e abandonado, se arrasta pela grama gelada no inverno rigoroso, sem família, em busca dos seus iguais, amigos que possam enfim aceitá-lo e amá-lo. O bondoso príncipe transformado em sapo pela magia de uma feiticeira busca um beijo libertador, que o traga de volta para o mundo do afeto e da solidariedade.

Enquanto isso, na Síria, crianças e adultos sofrem convulsões provocadas por armas químicas. Meninas sentem o seu cérebro ainda em formação explodir com uma bala de metal enquanto tentavam entender fração em uma sala de aula do Rio de Janeiro. Somo fracionados entre sobreviventes e massacrados. Não é fácil resistir.

Voltando às escolas waldorf, apesar de tudo, é preciso insistir, deixar o trigo descansar e crescer para virar pão. As crianças pequenas brincam de esconde-esconde, as maiores resolvem problemas de matemática. Porcentagem de quantas crianças no nosso planeta ainda têm direito de ser criança? ONGs estudam, publicam, esgoto corre solto nas favelas na Índia ou em São Paulo. Somos todos um, mas não sabemos quem somos.

Quando chegar a Páscoa, as crianças vão correr pelos jardins procurando seus ovos, a supresa, a delícia, a esperança, há de vir algo bom no futuro. Acreditamos. É preciso manter a vibração positiva e usar tudo o que construímos, estudamos, produzimos, para o bem, para o amor, para a aceitação, a gratidão. Apesar. Apesar da corrupção, do abandono, da rejeição, da agressão. Todos nós temos esse desejo, lá no fundo do coração, de encontrar algo melhor. Verdadeiro. E que nos leve para a transformação. Seremos cada vez melhores. As crianças acreditam nisso.

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