Mergulho no escuro

Texto de Marcela Petraglia, especial para o Mães em Rede.
Quando nasce um filho, a mãe é lançada no escuro de sua psiquê.
Enquanto a criança passa pelo canal vaginal e luta valentemente pelo direito de conhecer a luz, a mãe é sugada para dentro da obscurecida memória de alguém que foi e nem lembrava que era. A maternidade, a amamentação, as longas horas pela madrugada – sem sol, sem som, sem tantas interferências externas (e no mundo moderno são muitas!) – jogam a mulher numa solidão que ela jamais experimentou. Ou não lembrava que havia experimentado.
Quem é que no dia a dia agitado das grandes cidades tem contato com o silêncio e com o vazio? Hoje são tantas as distrações que não suportamos o vazio, o nada, o silêncio. Dá pra viver assim, nesse piloto automático acelerado e desembestado, pro resto da vida. Não pra quem teve um bebê.
Quem tem um bebê é apresentado a outro universo. A mulher que até outro dia corria de um lado para o outro equilibrando-se para dar conta do trabalho, do corpo, do amor e da casa sem tempo para parar… de repente se vê só e com uma mini vida nas mãos. É no encontro desse tempo do vazio que tudo pode acontecer. Ela pode entrar em estado de êxtase ou de desespero. Quem sabe as duas coisas juntas… Tudo vai depender do estado de sua alma.
Certamente essa mulher já se sentiu só antes. Muito só, quando era criança e não conseguia ser escutada pelos adultos surdos de sentimento que a cercavam. Certamente essa solidão a deixou triste e a fez chorar sozinha, encolhida num canto. E se essa tristeza ainda não foi vivida, aceita e transformada, o reencontro com a dor da solidão pode ser muito duro.
O som de um bebê chorando pode ser simplesmente normal para aquelas que viveram suas dores pra valer e aceitam suas cicatrizes. Mas para quem ainda está no canto da psiquê chorando, a reclamação estridente de um filho é enlouquecedora. E quanto mais a mulher enlouquece, mais ele chora. O neném sente o que a mãe sente. Simples assim. E o ciclo vicioso se dá.
Quantas mulheres com seus filhos berrando não vemos pelas ruas tão ou mais desesperadas do que eles? Expressões de esgotamento emocional, falta de paciência, apatia. Mesmo as mães mais equilibradas têm seus momentos de pânico, loucura ou tristeza. Pode ter certeza. Talvez retornem ao equilíbrio justamente por reconhecer o estado do caos e em estado de alerta sigam a seu modo para o final do túnel escuro.
Encontrar um recém nascido é aceitar embarcar numa montanha russa de emoções. Cada dia pode trazer surpresas inimagináveis. Cada mãe tem que dar seu jeito pra remar em seu barquinho mesmo que as ondas estejam enormes.
Imploro: não julguem as mães. Deixem as mães serem quem elas são, como elas são. É o melhor que cada uma pode fazer. Com certeza. O melhor que sua história permite que seja.
Tá na rua, encontrou uma mãe, antes de apontar o dedo para as mil e uma coisas que você acredita que ela possa estar fazendo de errado, ofereça ajuda. Olhe no olho dela – ela precisa, pode estar certo (a). Não precisa falar nada. É até melhor não falar. Um abraço, uma empurrada num carrinho, uma segurada de bolsa , uma mão pra quem passou de repente a ter que fazer tudo com uma mão só enquanto a outra segura, amamenta, embala e troca um bebê.
É tudo ao mesmo tempo. É come, arrota, troca e come de novo. Tem choro. Tem dúvida. Criança fala com o corpo. Há que se ter calma e tranquilidade pra ler cada gesto. Pra observar e constatar que nem toda mão na boca é fome, que um choro no meio de uma mamada pode ser um arroto precisando sair antes de dar prosseguimento à refeição, que nem toda mexida abrupta de perna é cólica, que o que chamam de cólica pode ser apenas um estado de irritação fruto muitas vezes de uma mãe irritada, nervosa, triste e abandonada.
Mas como ter a calma, a leveza para ler os gestos do bebê se você não suporta a angústia da solidão?
Cada filho que nasce convida a mãe para um mergulho no tempo que é fora do tempo. No tempo da cadeira de balanço. No tempo do não compromisso, da não pressa, da escuta, da quase zero fala. Não há distrações nem a agenda lotada da mulher moderna que a faz sentir-se tão ilusoriamente preenchida por coisas que estão tão fora dela.
É ela e um bebê. Um bebê muito pequeno e muito frágil como ela já foi um dia. E ali olho no olho dele, um vira espelho do outro. Ela se vê criança, com uma imensa responsabilidade nas mãos: dar conta de viver e aceitar que nascemos sós e morremos sós. Resta saber se aguentamos essa realidade. Se estamos prontas para transmutar e enxergar além.
Portanto, se você vai ter um filho ou conhece uma amiga que está prestes a ter um bebê, um ponto: o mais importante agora não é pensar no quarto do bebê, nas roupas da maternidade, no carrinho mais moderno do mundo nem nas lembrancinhas. O mais importante é cuidar da cabeça da mãe. É ela quem vai determinar o equilíbrio, a calma, a saúde do bebê. Nos primeiros meses, os dois serão praticamente uma coisa só e não vai ter pra onde correr. Com um bebê nos braços não há quem não faça uma viagem para dentro de si próprio. E se depare com regiões aparentemente desconhecidas e capazes de tirar qualquer um de sua zona de conforto.

Comentários

  1. Parabéns Raquel, lindo texto !! Muito emocionante mesmo !! Com que facilidade julgamos as mães que passam pelo nosso caminho…. ou as avós….. como é fácil emitir um julgamento ao invés de proporcionar uma ajuda, um alento, um olhar nos olhos sem crítica, só com muito amor, apoio e solidariedade. Fiquei muito tocada pelo seu texto, meus parabéns !!!!

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