Sobre números, letras e amor

Texto de Orjana Oliveira, especial para o Mães em Rede

Ah! Seus números e letras, vocês podem vir, mas por favor, não venham em forma de cobrança, de necessidade, tá? Sabem por quê?

Porque ela ainda tem seis anos, ela adora brincar, gosta de se sujar, de subir em árvore, de correr com os amigos…Ah! Os amigos! Já existem e fazem os olhos dela brilharem. Me diz uma coisa: é preciso mesmo ficar tanto tempo sentado?

Você sabia, que agora tem hora para brincar também? Sim, o recreio. A melhor hora do dia, agora tem um tempo curtinho. Você não entende? São as regras! E elas precisam ser cumpridas. O princípio das regras? O porque deles existirem? Eu não conheço, ou melhor, não foi apresentado a ela.

É preciso ficar quieta também, sabia? Sim, porque quando isso não acontece ela ouve gritos. Gritos que tiram o seu corpo do estado de curiosidade e encantamento para um estado de prontidão e medo.

Ainda assim ela chega em casa e diz:

“Mãe, sabia que o número oito pode virar um boneco de neve?”

O dever de casa chega e a minha indignação com vocês vem junto. Como vocês podem chegar com tanta força? Já querendo sentar na janela? Fiquem mais atentos e pasmem com o que tenho a dizer: As letras que a encantam tanto, são transformadas em anotações antes mesmo que ela saiba escrever o próprio nome. Anotações essas que relatam a ausência de ter feito o dever de casa. Sim, porque se o dever de casa não for feito, tem anotação!!

A obrigação de colocar vocês no papel, toma o lugar do encantamento percebem?

Vocês precisam fazer alguma coisa! Hoje, ela chegou preocupada, porque não queria deixar a professora triste e lá estavam vocês de novo. Sabem onde? Agora no quadro! O nome dela! Que ela rabisca lindamente com tanto orgulho, ocupa lugares estranhos e dessa vez uma carinha triste está ao seu lado. A professora está triste porque o dever de casa não foi feito.

Está ficando sério!

E a reputação de vocês? Não se preocupam?

Imagino que estejam se perguntando, porque precisa ser dessa forma. Não é possível. Me desculpem, pensando bem, essa responsabilidade não é de vocês, é minha. Não posso acreditar que precise ser assim. Sendo assim, ela não estará mais por aí. Percebem que preciso garantir a infância dela? Mas me conforta em saber que vocês estão em outros lugares e que vão terminar encontrando-a.

Para confortá-los, hoje ela chegou e disse:

“Mãe, a minha letra é a mesma letra do Amor sabia?”

“Que lindo filha. Quem te falou isso?”

“ O Luís. ”

Ah! Os amigos…

Orjana Oliveira, mãe de Alice Oliveira, aluna do 1° ano do ensino fundamental

Comentar