Competição aqui e no Império Romano

Em algum lugar do planeta, em uma classe de sexto ano de uma escola waldorf, as crianças entre 11 e 12 anos estudam o Império Romano. A cesárea do imperador Júlio Cesar, as origens da república, a necessidade do ditador entrar em campo nos momentos de crise, as guerras civis, um bocado de conteúdo a ser assimilado e vivenciado. Para o fim de semana, como tarefa de casa, a professora solicita que as crianças façam um elmo de soldado romano. E ali começa a batalha. Um dever escolar pode mostrar muito sobre a nossa cultura de competição.

Para fazer o elmo poderia ter ajuda dos pais ou não. Era preciso investigar os materiais disponíveis em casa ou comprar o que era necessário. Enfim, o a liberdade de escolha era grande e cada criança se organizou como pode para entregar na segunda-feita o elmo pronto. A minha filha naquele dia recebera a visita de outra colega de classe e, portanto, ambas escolheram fazer os elmos em vez de brincar. Na verdade eu tentei intervir algumas vezes sugerindo que parassem o trabalho para brincar…nada dava certo, estavam inspiradas, envolvidas, determinadas.

Tiveram que usar criatividade, papelão da caixa onde eu trouxera as compras de supermercado na véspera, papel laminado de cozinha, um resto de papel dourado que usamos para fazer estrelinhas no Natal, um papel cartão vermelho para fazer as franjas, muito durex. Elas trabalharam duro e deram o melhor de si dentro das possibilidades de material que tinham à disposição. Eu não me intrometi. Primeiro achava mais interessante que elas fizessem sozinhas, depois elas já são mais talentosas que eu para trabalhos manuais.

Na segunda-feira todas as crianças da turma levaram seus elmos. E aí começa um aprendizado e tanto. A competição. A diferença entre os elmos era grande. Um deles tinha até o movimento dos olhos e das laterais, outro as inscrições em letras antigas SPQR, o famoso Senatus PopulusQue Romanus, um deles tinha franja no alto da cabeça feito com uma espécie de piaçava de vassoura, outro um chumaço de penas azuis esvoaçantes, um outro um longo cabelo vermelho. Mas alguns eram só uma estrutura de papelão reciclado colado com durex ou uma espécie de capacete adaptado.

O Império Romano foi caracterizado pelas disputas, guerras, competições. Os elmos eram usados por soldados, gladiadores, guerreiros. Era uma sociedade de lei e luta, de direito e disputa. O exercício de construir e comparar os elmos ensinaram às crianças que, além de um instrumento de guerra antigo, os romanos previam a necessidade de proteção e não somente de ataque. E fizeram uma reflexão filosófica ao se depararem com a necessidade de confronto entre a qualidade, a funcionalidade e a beleza dos seus trabalhos.

As crianças competem naturalmente pelos seus feitos e opiniões. A forma como essa capacidade de competição se desenvolve influencia a forma em que o adulto no futuro irá se relacionar e defender suas posições. Respeito e reverência, aceitação da crítica e avaliação do elogio, reconhecimento de capacidades e dificuldades. São táticas de sobrevivência social que permitem uma convivência mais solidária que, infelizmente, não é a que lidamos diariamente na era das redes sociais, das brigas de trânsito e no esfacelamento das famílias. Resgatar o sentido da competição saudável pode ser um caminho da educação atual para um futuro em que o conceito de cidadania defendido desde a época romana se amplie e seja mais igualitário.

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