Amor

Em uma manhã de inverno, lá estava ela na fila para entrar em classe. Um sorriso a mais entre os meninos e meninas de quatro anos. No final do dia, perguntei a Carol:
– Tem uma amiguinha nova na turma?
– Sim, a B. (sigla fictícia).
E não pensei mais no assunto. Um amigo novo é sempre bom e ponto. Passei a cumprimentar a mãe da menina na saída da escola e um dia me apresentei. Falamos sobre o colégio, sobre classes de natação, sobre a festa de Natal, a convidei para participar do nosso grupo, ela aceitou e assim tivemos uma mãe a mais no nosso grupo de mães da escola. Nada fora do comum.
Até que no primeiro aniversário coletivo do ano (na escola das crianças, costumamos fazer uma festa por trimestre para celebrar os aniversariantes do período), a mãe de B. reuniu a todas em uma mesa e nos contou: B. e o irmão tinham acabados de ser adotados. Vinham de uma outra cidade e tudo era novo para eles. Tinham ganhado uma família, pai e mãe, tinham um novo colégio, novos amigos. Para esta mãe, também tudo era novo. De repente, de um dia para outro, passou a ser mãe de uma menina de quatro anos e de um menino de nove.
“Caramba!” – pensei – “que coragem!” Passei a olhar a esta mulher com uma enorme admiração. Ser mãe é um aprendizado constante. A gente cresce com nossos filhos. Aprendemos a conhecê-los em cada gesto, em cada expressão. A mãe de B. teria que aprender muito mais rápido que a gente. Não, não devia ser nada fácil. Mas quem é mãe do coração sabe também a felicidade que é. E ela estava, acima de tudo, feliz com seus dois filhos.
A vida seguiu normal para as crianças do jardim. B. se integrou bem, era amiga de todos, uma a mais na turma. Mas o mesmo não aconteceu com o irmão. A adaptação de uma criança de nove anos não é tão fácil quanto uma de quatro. O menino tinha problemas para se relacionar. Era agressivo com os colegas e estes responderam rejeitando-o.
Tão difícil devia estar para o menino, que ele contou tudo para o responsável pela supervisão da adoção. A máquina burocrática então fez sua parte. Em vez de tentar solucionar o problema, decidiu levar o problema para outro lugar. De um dia para outro veio a ordem: mudar de escola imediatamente. Como o irmão mudava, lá se foi B. para outro colégio, sem nem poder ser despedir dos amigos. Um dia simplesmente já não veio mais.
As crianças perguntaram, é claro. Onde está? Por que não vem? Por que não disse tchau? Era o que mais incomodava. Cada pai inventou sua história, mas não se despedir doeu mais que qualquer outra coisa. Na verdade, neste momento, nem nós sabíamos o que havia passado. A mãe se despediu por mensagem, mas não disse por que, nem nós nos sentimos à vontade para perguntar.
A história completa só soube depois, quando encontrei com a mãe na rua. Em poucos minutos, ela desabafou. Estava bastante revoltada com a decisão, foi totalmente à sua revelia. Mas que pelo menos a mudança tinha sido boa para o menino. Ele estava melhor, mas que não estava bem agora era B. A menina esta triste. Sentia muita falta dos seus amigos, da professora, da escola. Não entendia nada porque tinha sido tirada de um lugar onde era feliz, para outro, onde não conhecia ninguém. Fiquei triste por ela, tentei animá-la, que logo faria novos amigos. Também a convidei que viesse no próximo aniversário coletivo, que celebraríamos na semana seguinte. Assim, ao menos, poderia rever seus amigos.
Não contamos nada para as crianças que B iria à festa. Elas estavam todas juntas, brincando, quando a menina chegou. Que alegria! As 12 crianças presentes correram para abraçá-la. Por um largo minuto, tempo imenso para meninos de 4 anos, se fusionaram em um abraço conjunto. 24 braços rodeando uma amiga. 12 amigos para dizer que ela era amada, que não a tinham esquecido. 12 pessoas de 4 anos muito mais sábias que qualquer burocracia.
Não preciso nem dizer que nós mães acabamos com o estoque de lenços de papel.
Se você tem dúvidas sobre o que é o amor, é fácil. Basta perguntar a uma criança de quatro anos.

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