Maternidade fora da história

A maternidade é sempre um acontecimento à margem da grande história, em que mãe e filho se conhecem entre quatro paredes, tentando ambos sobreviver à violência desse contato e também à violência do mundo lá fora – que não toma e não quer tomar conhecimento desses personagens marginalizados. É uma forma dura de descrever um momento em que a maior parte das mulheres tenta ver como o mais doce e amoroso das suas vidas. A luta já está aí. Transformar o massacre existencial em beleza.
As reflexões sobre o papel da maternidade para as mulheres na Era da Informação vai muito além do simples fato procriador.

Queremos mais, ser donas dos nossos corpos e destinos, fazer parte da história. Entretanto, gentil paradoxo, inicialmente a maternidade é sair da história. “Depois de quatro meses trancada dentro de casa, quando saí para trabalhar comecei a respirar de novo, a sentir que voltava para mim mesma”, conta uma mãe que conheci um dia no parque.
Um dia no parque. É quando as mães de hoje desafogam quando se sentem oprimidas entre o desejo de ser feliz e ser boa mãe e ao mesmo tempo continuar na história, no ritmo cada vez mais veloz e tecnológico que não respeita a lentidão dos recém-nascidos, dos primeiros passos, do preparo da papinha orgânica.
Meus filhos estão crescendo e eu vou abandonando meu andar de tartaruga atrevida, do tipo que foi vindo lentamente mas sem nunca esquecer que queria cruzar a linha de chegada. Em homenagem a eles – e a mim mesma – vou publicar o meu primeiro livro, resultado de minha dissertação de mestrado de 7 anos atrás… Nos intervalos das aulas amamentava o meu segundo filho, recém-nascido, em um café nas proximidades da Faculdade de Letras da UFPR. Minha mãe ou a avó paterna se revezavam para que eu prosseguisse na história.
Inicialmente era um projeto de pesquisa literário, literatura italiana, a análise do livro “A História” da autora Elsa Morante. Mas a maternidade estava em tudo e eu a vi, gritando, pedindo para sair do livro e virar tema de discussão, entrar na história o fato mais misterioso e banal, que é o nascimento e o crescimento do ser humano. E Ida, a protagonista, era tão insípida como uma papinha de chuchu, uma mulher feia com baixa autoestima, marginalizada e esquecida.

O comportamento de Ida, no entanto, é baseado na maternidade que supera tudo, desde a violência da concepção, visto que o seu segundo filho, Useppe, é fruto de um estupro, até à sua dedicação apaixonada e à permanente luta para ajudá-lo a sobreviver na hostilidade do mundo e do seu próprio corpo. Por fim, a utopia da tentativa de superar até mesmo os limites físicos e a doença.
“Todas as sementes falharam, exceto uma, que não sei o que seja, mas que provavelmente é uma flor e não uma erva daninha”, escreve Elsa, citando uma frase escrita em uma cela de um presídio italiano.

Useppe era como uma florzinha nascida de uma sementinha muito frágil em um ambiente de guerra, fome e descaso. Com essa imagem de uma criança frágil, adoentada, que nos remete às fotos  das crianças nos campos de refugiados ou nas balsas no mediterrâneo, aos meninos pedindo esmola nos sinais das nossas grandes cidades, tecendo a história, até o seu fim.
Giuseppe, assim como fora precoce no seu nascimento, revelou-se precoce em tudo. Nas etapas habituais e naturais que assinalam o desenvolvimento dos lactentes, no itinerário das experiências, ele chegava sempre adiantado, mas com uma antecipação tal (pelo menos para aquela época) que eu mesma nem poderia acreditar se não tivesse visto, de alguma maneira, o seu destino. Parecia que as suas pequeninas forças se estendiam todas juntas, com um urgente e imenso ardor, na direção do espetáculo do mundo sobre o qual acabava de penetrar.”
Elsa Morante, que não foi mãe, descreve a maternidade como uma das experiências mais violentas a qual sobrevivemos. E festeja cada batalha vencida com o mesmo ardor das grandes realizações da história.
“A temperatura ainda era amena, e Giuseppe ficava completamente nu, no seu bercinho. A vergonha ainda não existia para ele. Seu único sentimento era a avidez de demonstrar às visitas o seu contentamento em recebê-las. Sua alegria era realmente intensa, como se para ele, de cada vez, se renovasse a ilusão de que aquela rápida festa iria durar por toda a eternidade.”
As mães, cada uma de nós, vivemos nossa batalha diária para não sermos relegadas ao ostracismo das nossas avós, ao estresse das nossas mães, ao desamparo da nossa sociedade que não considera a maternidade um grande feito, apenas a continuidade da pequena história existencial de cada ser humano. E no fim, porque tudo um dia chega ao fim, o que mais desejamos é compreender a razão de, apesar de tudo, querer continuar essa história, mesmo com governos corruptos e cada vez mais intolerância e crueldade ao nosso redor.

No hall escuro, o corpo de Useppe jazia estendido, com os braços abertos, como sempre acontecia nas quedas. Estava todo vestidinho, salvo as sandálias que, por não terem sido afiveladas, tinham saído de seus pés. Será que ao ver aquela maravi- lhosa manhã ensolarada tinha pretendido ir com Bella até sua floresta? Ainda estava morno e começava a enrijecer-se. Mas Ida não quis, absolutamente, compreender ou aceitar a verdade. Contrariando os pressentimentos recebidos inicialmente pelos seus sentidos, agora, diante do inevitável, sua vontade recuou, fazendo-a crer que ele estava apenas caído (durante esta última hora da sua própria luta contra o Grande Mal, Useppe, na realidade, caíra e recaíra de um ataque a outro, quase sem cessar…) Depois de ter carregado seu filhinho para a cama, Ida ficou debruçada sobre ele, como tantas outras vezes, esperando que ele reabrisse as pálpebras e lhe sorrisse naquele seu jeitinho muito especial. Só muito depois, encontrando o olhar de Bella, foi que Ida compreendeu.”
A dor de Ida ajuda a entender a dor das mães da menina vítima de bala perdida em Irajá, no Rio de Janeiro, da mãe que segura a mão do seu filho em uma das alas do Hospital Infantil Pequeno Príncipe, em Curitiba, dores agudas que aliviam as nossas pequenas dores de encontrar trabalho – apesar dos filhos -, de sermos amadas – apesar dos filhos, de sermos respeitadas – apesar dos filhos.

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