Eu vim de lá.

“Não é pouco saber dormir; para isso é preciso aprontar-se durante o dia. Dez vezes ao dia deve saber vencer-te a ti mesmo; isto cria uma fadiga considerável, e esta é a dormideira da alma.

Dez vezes deve reconciliar-te contigo mesmo, porque é amargo, vencermo-nos, e o que não está reconciliado dorme mal.

Dez verdades hás de encontrar durante o dia; se assim não for, ainda procurarás verdades durante a noite e a tua alma estará faminta.”

Friederich Nietzsche, em Assim falou Zaratustra.

 

Os primeiros dias de volta do Brasil correm fora do corpo, do tempo, do sono. Ficam perdidos em algum meridiano entre lá e cá, em Singapura. Flutuando insones, para além dos desafios fisiológicos de nos arremessarmos entre dois hemisférios opostos, dois tempos, nuances extremas de nossa existência. Entre as horas silenciosas em que supostamente nos refaríamos das vivências recentes, revivíamos acordados as cenas que tonificaram nossa musculatura tupiniquim, aceleraram o fluxo sanguíneo nestes corpos que ferveram de afeto, farra e papo sério.

Saímos de casa cedo, queríamos ver o sol chegar. Deitamos no quintal, corpos pesados, entregues, cansados e insones, os olhos atentos, fixados entre duas realidades, bem no centro, a imagem que representa o ideal de perfeição, o caminho do meio. Metade do céu coberto da escuridão noturna, com um único ponto brilhante, metade do céu se descortinando em raios avermelhados, o fogo celestial inaugurava um novo dia. Pensávamos no quanto a noite pode ser longa, quando por ela atravessamos acordados. E no quanto o dia pode ser penoso, se a noite tiver sido longa. Vicente lembrava aquilo que um dia me ensinou, quando eu, entre goles de café, me recobrava de uma noite insone: “Lembra, mamãe, que quem manda na gente, de verdade, verdade mesmo, é a noite? Se a gente não dorme, não consegue sentir o dia”.

Respirei aliviada, porque sabia que aquela era só a primeira noite. O começo, a readaptação de corpos que estiveram em plena atividade, porque conviver era urgente e o repouso secundário. E que, dali para a frente, o ácido lático se diluiria pelas fibras, se transformando em memória, em reorganização muscular, em energia renovada. Em uma vontade de estar ainda mais presente e consciente e aproveitar os benefícios de estar aqui, sabendo ser, mais do que nunca, moldada por uma substância que vem de lá. Onde o sistema funciona mal, onde a violência é dado de realidade, onde a desigualdade só aumenta e a educação não chega a todos, mas onde o povo é de barro resistente, alegre, sofrido e tão cheio de malemolência quanto valente.

Na nossa terra, do nosso barro vem a moça do metrô, que acorda ainda de madrugada, passa batom, perfume, enfeita o cabelo de fivelas de tartaruga, pega duas conduções lotadas, passa duas horas em pé, amassada, enlatada e me oferece o troco com sorriso, me chamando de “meu amor”. Vem a senhora que oferece o “chorinho” do pão de queijo, não porque o peço, mas porque ela precisa ganhar tempo e companhia para me contar que ontem caiu na laje, machucou os dois joelhos e entre uma gargalhada e um gemido vocifera “tá doeeeeendo, menina!”. Logo ali, seu Sebastião, aos quase 80 anos, toma conta da portaria, ouve Elvis Presley no hall de entrada e nos fala dos tempos de mocidade, em que fugia de casa para ouvir as músicas do Rei na sala de cinema e dançar por longas horas. Lá na mesma terra em que um grande amigo improvisa e compreende o mundo que ele quer dar ao filho, que mostrava ao pai com estranhamento, a cena de dois homens se acariciando na praia: “Eles se amam. Como eu e a sua mãe. Como um dia você vai amar alguém. O que importa é a gente ser feliz e poder amar de verdade.” Naquele território imenso, mora alguém que em um gesto simples, me explicou mais do que tentei transcrever em mil palavras: “Quando a gente fala do outro tem o dedo indicador sempre apontado para ele, mas estes três (salientando os dedos médio, anelar e mindinho dobrados na palma da mão) apontam de volta para a gente.”

É de lá que a gente vem. Do lugar onde o povo, mesmo tão carente em estrutura e educação, tem em si a tal substância, aquela vontade de viver, de se reconciliar consigo mesmo, de encontrar verdades do lado de dentro e no outro. Frestas de contentamento, força e fé. Porque lá na minha terra, alguém especial me ensinou que a felicidade passa como nuvem, vem e vai com o vento. E nossa única obrigação é nos abastecermos dela para seguirmos por entre tempestades.

Comentários

  1. Que lindo texto, Bia! Adorei a citação! Sabe que aqui eu aprendi que tem noites que são muito, muito escuras e outras que são tão claras como o dia, acho que assim tb eh a nossa vivência diária/ diurna… às vezes o caminho eh claro, outras não conseguimos ver nem onde pisamos, quiça onde vamos…

  2. Bia Querida, de forma muito simples e consistente vc relata este turbilhão vividos por vcs. Da mesma forma simples e , bastante objetiva, o Vicente explica o tom das possíveis frestas. ” Quem manda na gente, de verdade. de verdade mesmo, é a noite!” E são nestas noites possíveis que conseguimos recobrar um pouco – e aos poucos – o que deixamos em alguma fresta de algum hemisfério. O corpo pede um pouco mais de calma, como diz o Lenine, a alma não para! Três dedos bastam para que não nos esqueçamos de nós mesmos, desta coisa mutante e resistente que há em todos nós. Sentir os dias, que mansamente escorrem dos pensamentos na noite ajustada, em pequenos risos, pequenos gestos, pequenos carinhos e beijos sempre grandes, pois esta é condição básica do beijo. Grande ! Seu!

  3. Bia, Bia, Bia !!!!!

    Seus textos me tocam muito, minha querida !!!
    Você tem o dom de abrir os corações dos que te lêm e pela fresta, você consegue dar uma brecha para que eles se conheçam melhor.
    Você é um espelho para as almas, minha linda !!!
    Te amo tanto….tanto….tanto !!!!!
    Muito obrigada por tudo
    Um beijo enorme no seu coração !!

  4. Filha, que lindo texto! Quantas emoções diferentes vividas em tão pouco tempo! Esse seu olhar sobre tudo me faz ver o quanto você é especial! Como você vê cada coisa vivida de maneira clara e sensível!
    Que essa sua alma linda, que enxerga o bom e o bem no meio da turbulência me faz cada dia mais ser sua maior fã!
    Um beijo grande com a saudade de dias tão bons com a família toda unida!Que falta vocês fazem!

  5. Ai minha amiga, sempre acabo de
    te ler em lágrimas. Como me conecto com você. Dessa vez com histórias que compartilhamos pessoalmente, quando contou da cobradora do metrô.
    Baita sentido fez para mim o tema sobre o dia, a noite e estar insone.
    Conto os dias para saber que estará aqui de volta logo! Beijos em todos. Te amo. ?

  6. Bia, que honra e orgulho participar do seu texto, da sua vida…
    Aos filhos, raízes, asas e valores, para deixarmos seres melhores para um mundo melhor! Essas criaturas são alunos que nos ensinam, sempre…
    Parabens e obrigado! Amo vcs!
    bjs

  7. Bia tão querida, você escreve a partir de um lugar tão radical, sensível e verdadeiro que quando percebo sou carregada nos ares pela sua voz e sua emoção e vivo com você a sua experiência como se fosse minha…
    e saio transformada… namastê

    • Ma, minha amiga, minha mentora, você vai ser sempre uma grande inspiração para mim. Quando escrevi, você estava comigo, em todos os pensamentos e também no meu perfume (que já virou o meu preferido). Namastê!

    • Paula, adorei a sua companhia e ajuda fundamentais naquela confusão entre malas, caixas e o momento de partida. Obrigada pela ajuda e força, sempre. Beijos

  8. Bia …. que loucura a sua capacidade de tocar a todos ❤ seu texto ensina e emociona …. sempre.
    Tenho certeza que vou estar com um livro seu em minhas mãos um dia.
    Bjo no seu ❤

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