A moda das “malas madres”

Aqui na Espanha faz muito sucesso o blog Club de las Malas Madres (Clube das Mães Ruins), onde muitas mulheres se desafogam e contam seus pequenos e grandes problemas com a maternidade. A maioria dos textos é divertida, mas o sucesso vem mais pelo fato destas mulheres contarem suas imperfeições e como a vida de mãe é dura. Também repercutiu bastante o livro Madres Arrepentidas (Mães Arrependidas), da socióloga israelense Orna Donath sobre sua pesquisa, onde algumas mulheres contam, como diz o título, que se arrependeram de ter colocado filhos no mundo. E também esta semana, uma jornalista de TV, que em um reality show fez todo o país acompanhar sua gravidez de gêmeos, declara que descobriu que ser mãe é perder qualidade de vida. Também no Brasil é muito fácil encontrar blogs sobre este tema. Basta colocar mãe no Google e uma das primeiras sugestões é arrependida. Será que passamos de idealizar maternidade como um momento de felicidade perfeita a todo o contrário? Ser mãe é uma m…?
A vida inteira a maternidade foi tratada como comercial de margarina. As lindas famílias perfeitas que tomam café da manha. Um bebê em casa era visto como uma coisinha cheirosa, bonita, cheia de dobrinhas. Mesmo os problemas eram/são idealizados. Ser mãe é um momento único. É experimentar o mais puro amor. Não há relação igual que a de mãe e filho(a). Isto nos venderam. Também nos venderam que se pode ser perfeitamente mãe, super profissional, estar gostosona e ainda ser esposa/dona de casa. Aí vem a realidade e mostra sua verdadeira cara: não existe nada mais cansativo que ter um bebê. As noites mal dormidas vão se acumulando, junto com as roupas para lavar e os trabalhos para entregar. Percebemos que não somos super-mulheres, que é muito difícil- para não dizer impossível- ser tudo isto ao mesmo tempo. Alguma coisa sempre vai ficar pelo caminho.
Mas reconhecer esta impossibilidade é muito complicado. Como compramos tão bem a história de que sim, podemos ser o que a gente quiser, que muitas vezes o sentimento de fracasso se apodera da nossa cabeça. Se fulanita da revista consegue, por que eu não consigo?
Aí vemos surgir todos estes estudos e textos que te dizem que você é só mais uma no clube. Ser mãe é difícil mesmo. É complicado em qualquer circunstância: com ajuda, sem ajuda, trabalhando, dedicando todo o tempo aos rebentos. É difícil ser mãe jovem, velha, de um filho só, de dois, de gêmeos. No Brasil, na Europa, na Conchinchina. Tem os filhos que dormem bem, os que não dormem, os que comem, os que não comem. Tem os levados, os super levados, os que batem, os que apanham. Tem que escolher escola, natação, curso de inglês. Tem que buscar e levar. Sentar para fazer o dever de casa.Tem a imensa responsabilidade que é criar outro ser humano. Será que sou boa mãe? Nos perguntamos todos os dias.
Aí bate aquela saudade da liberdade. Não tanto de dormir até a hora que quiser. É mais que isto: é de ser responsável única e exclusivamente pelo próprio umbigo. Ual! Que sonho! Que saco é ser mãe! E toma texto e polêmica nas redes sociais.
Obviamente não me refiro aqui às mulheres que sofrem depressão pós-parto, que é um problema realmente grave, que padecem muitas famílias, muitas vezes em silêncio. O que me refiro é que lendo estes textos parece que algumas mulheres compraram uma ideia de maternidade, não ficaram satisfeitas com o produto, não podem devolver o pacote e se encontram com uma surpresa: a vida mudou, nem sempre para onde se esperava.
Fico feliz de que a idealização da maternidade esteja sendo questionada. Que podamos nos reconhecer como seres humanos que erram, que gostariam de ir à manicure em vez da natação. Que entregam um trabalho meia-boca porque o filho ficou doente e não teve cabeça para fazer melhor. Mas me incomoda este sentimento infantil de alguns adultos: de que é mais fácil não se preocupar com o outro.
Não gostaria de ir de um extremo a outro. Da maternidade ideal a um castigo divino. Talvez fosse mais fácil nos reconhecer com pessoas com limites, sem falsas expectativas. Mas também atuar e se comportar como adultos que somos, porque as infantilidades só ficam bem nas crianças.

Comentários

  1. Parabéns pelo belo e tão verdadeiro texto, Rosane.
    Já sofri muito como mãe por não me encaixar no padrão dos comerciais de “mariana de família.”
    Após 39 anos ( tem meu filho mais velho) e 37 anos tem minha filha, ainda sofro muito com a culpa.
    E vejo minha filha, hoje mãe de uma boneca de 2 anos e meio ( minha adorada neta) morando nos USA e sofrendo muito para dar conta deste novo papel.
    Maravilhoso seu texto, meus parabéns !!!!

Comentar