A maternidade, o luto, o seguir

Vamos chamá-la de Maria, para preservar sua identidade, que, no fundo, não importa qual seja, porque não diminui sua dor, nem muda sua história. Ela tem 30 anos e um filho de 10. Trabalha como diarista, tem um pequeno salão de beleza em casa, parou a faculdade porque não tinha mais como pagar, mas sonha em voltar um dia e se formar em psicologia. Em junho, o marido foi demitido do emprego de motorista. Dias depois o atraso na menstruação confirmou que mais um filho estava a caminho. E a vida complicou.

A gravidez não estava nos planos, muito menos a demissão de João. Os meses foram passando e, ao mesmo tempo que o bebê crescia no ventre, as preocupações de ambos aumentavam. E o sorriso de Maria deu lugar a um olhar constante de dúvida, escondia a barriga, fazia de conta que ela não estava ali. Nada de emprego, dinheiro curto. Cortaram o plano de saúde familiar, teriam a criança no serviço público da cidade de 200 mil habitantes onde moram, no interior de São Paulo. A ultrassonografia paga por uma antiga patroa mostrou que mais um menino estava a caminho.

Já em dezembro um cunhado emprestou seu 13o para a entrada na compra de um carro financiado. O marido tirou a licença no Uber para rodar perto do aeroporto de Viracopos, levando executivos para a capital. A vida parecia que ia achar um pouco de tranquilidade naquele final de gravidez. Já com 35 semanas, Maria se permitiu fazer um chá de fraldas e tomou coragem para comprar o berço que iria pagar em 12 vezes. Voltou a sorrir.

Na semana do chá organizado pelas vizinhas, começaram as dores de cabeça. Foi para o pronto socorro, crise de pressão alta. Ficou três dias internada até que os remédios conseguiram estabilizar as taxas. O bebê estava bem, ótimo peso e tamanho. Mas o médico recomendou que ficasse mais um dia no hospital, só por precaução. Tranquila porque iria embora no dia seguinte, Maria dormiu pesado, finalmente, a noite toda.

Na manhã da sexta chuvosa, as enfermeiras não conseguiram identificar os batimentos cardíacos do bebê. A médica paciente veio dizer que iriam induzir o parto, mas ninguém sabia explicar para Maria porque seu bebê não iria mais nascer, nem conhecer o irmão, nem parecer com o pai.

O parto foi normal. Maria voltou para casa, o leite desceu, mas não tinha a quem amamentar. Na semana seguinte foi liberada para voltar a trabalhar.

Algumas horas ela acha que isso tudo tem um propósito, um sentido, que ela ainda vai entender. Todo mundo diz que ela tem que seguir adiante. Que tem o outro filho para criar. Lembram a todo momento que podiam ter perdido ela também. Precisa seguir porque a vida não parou. Mas ela não se achou. E, no fundo, quer acreditar que é um grande pesadelo do qual ela ainda vai acordar.

Imagem: Candido Portinari, O Último Baluarte – A Ira das Mães (Série Bíblica) – 1942

 

 

 

Comentar