O picolé de uva e a percepção do buraco

Tomar um picolé de uva com as crianças após a escola. Sim, eu lembro disso como um dos maiores prazeres da minha vida nos últimos 11 anos. Muita coisa eu esqueci, noites difíceis, dificuldades para pagar as contas, solidão. O que era difícil, a memória sugeriu deixar pra lá e ficou o picolé de uva. Li sobre esse prazer do picolé em um texto da Ruth Manus que apareceu na minha timeline essa semana. Esse é o lado das redes sociais que eu mais aprecio. Apesar de tudo, estamos conseguindo com a internet dar voz a quem antes só conseguia ser lido através do mimeógrafo (alguém lembra o que é isso?).

Há mais de 20 anos pesquiso a fragmentação da informação. Vou me dando conta que as minhas referências são assim, “há 15 anos”, “há 20 anos atrás…”. Mas tudo bem. Descubro que envelhecer é também amadurecer nossos frutos. E o que aprendemos, o que estudamos, o que sabemos, continua lá e pode ser usado de formas diferentes, se estiver muito passado, façamos uma geleia, se ainda estiver firme, podemos exibir em um prato sobre a mesa e oferecer para quem apetece. Outros vão fazer uma deliciosa salada de frutas às vezes aproveitando os frutos amadurecidos de outros companheiros de percurso.

E é na desordem quotidiana da fragmentação da informação que recebemos que vamos criar uma relação crítica com a narrativa dos fatos, das vivências, dos nossos saberes. O tal texto da Ruth Manus falava da nossa geração, indefinida entre a dos avós e dos nossos pais, e o que ainda cada um está querendo. Liberdade pra tomar café da manhã sozinho em um conjugado em São Paulo ou ter que preparar almoço para cinco filhos em uma chácara em Campo Magro.

Mas para assumir essa liberdade existe a necessidade de um maior conhecimento do mundo, um mais amplo conhecimento de si mesmo para superar o hábito, o óbvio e os nossos padrões estabelecidos de pensamento. Apesar do hábito da terra em girar em torno do sol, eu posso mudar a minha forma de fazer café, exemplificava Umberto Eco. É uma discordância que é o princípio da transformação do hábito em substância, a substância aristotélica de dar às coisas um significado.

O ponto de partida pode se encontrar na possibilidade de ir além daquilo que se espera, identificando as ansiedades dos quotidiano e fornecendo as capacidades de interpretar, o que nos leva a saber “algo a mais” sobre o que acontece. Quanto maior é a nossa capacidade de superar o caráter mediano da nossa existência, maior são as nossas possibilidades de vencer os desafios que o mundo da tecnologia e da cultura de massa nos propõe. Charles Pierce avisava que saber o que pensamos, ser dono do que entendemos, é uma sólida base para um pensamento grande e poderoso.

A desigualdade social se fortalece justamente nessa diferença sobre o uso que somos capazes de fazer com os nossos saberes. O acúmulo de dinheiro no mundo atual é resultado principalmente do acúmulo de saber e de informações. Hoje eu sei que tomar um picolé no fim de tarde com meus filhos é mais prazeroso do que ter sucesso profissional. Não é que o sucesso não me faça falta, não, não é isso. Faz falta sim, fica aquele gosto meio amargo do que poderia ter sido, mas o sabor do picolé muitas vezes esconde esse amargor. E vamos em frente. Não dá pra ter tudo na vida. “Qual seria a graça do mundo se fosse assim?”, pergunta a compositora paranaense Ana Vilela.

As palavras não provocam somente pensamentos, mas também posições, tem um significado social reconhecido como “bom senso” no nosso quotidiano desordenado. A palavra é distribuída e assimilada de forma fragmentada, como em um armário onde objetos diferentes convivem e se integram. Somente quem conhece a história daqueles objetos, uma bola rosa e amarela com um buraco causado por um espinho numa tarde no parque, um disco de vinil de Chico Buarque que pertenceu a avó materna, tem a capacidade de organizar as informações e transformar em um processo cognitivo de valor cultural e social – mesmo se a narrativa seja fundamentalmente pessoal.

Tudo muda quando o indivíduo é capaz de “perceber”. Perceber é aprender um fato que tem essa ou aquela natureza e por isso vale a pena pensar e julgar. Nem mesmo a mais leve impressão, o menor fato, é percebido por nós se não foi antes pensado. Isso quer dizer que em primeiro lugar é preciso estar disponível para perceber. Mas não é apenas na capacidade simples de perceber, por exemplo, que a bola tem um furo, porque não sabemos contar a sua história se nos falta as informações precedentes sobre aquela tarde no parque. A “percepção” do buraco pode acordar interesses para chegar àquele conhecimento. Assim, pensar e julgar é um caminho para superar a fragmentação na desordem quotidiano das informações.

O saber é uma necessidade, algo que movimenta a nossa inteligência até se tornar uma necessidade. É a possibilidade de transitar por meio de dados disponíveis, de informações organizadas. Saber não é aprender tudo, mas ter em mãos os instrumentos disponíveis para chegar na informação. E mesmo se o acesso é impossível ou difícil, por razões econômicas, sociais ou políticas, o valor de tal saber não é descartado, mesmo se estão fechados, os caminhos da pesquisa estão indicados.

São as estratégias que se articulam com as táticas do quotidiano. Com o conhecimento de qual caminho seguir podemos criar percursos e identificar o que nos interessa. Discordar apenas não nos coloca em pé de igualdade com os outros, simplesmente nos deixa isolados se as táticas não estão disponíveis. Quando somos capazes de “perceber” os nossos hábitos, maior é a nossa percepção que podemos modificá-la. Perceber quais são as nossas formas de fazer as coisas é um jeito de dar um novo significado a elas. Aí você escolha se toma o picolé ou…

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