Histórias desencontradas de uma noite de inverno

Aconteceu neste Ano Novo. Na cidade de Ourence, na Galícia, não nasceu nenhuma criança no dia primeiro de janeiro. Sabe aquela matéria típica de todo jornal? Qual foi o primeiro bebê do ano? A simpática imagem da mãe exausta segurando seu rebento? Pois é, os repórteres foram aos hospitais da cidade e para surpresa geral não tinha nascido ninguém naquela noite, nem naquele dia. Nenhunzinho. Embora o problema da baixa natalidade espanhola seja reconhecido e debatido, nunca ficou tão claro o quanto é um fato real: cada vez nascem menos crianças neste país. Ok. No dia seguinte sim que nasceram crianças na cidade de Ourence, mas nada vai mudar o fato que o primeiro nascimento de 2017 foi no dia 2 de janeiro. Sim, este é um país onde criança está se tornando um bicho raro. E ninguém parece estar muito preocupado com isto. Talvez se preocupem quando não exista gente jovem em número suficiente para pagar as aposentadorias dos mais velhos ou quando não exista ninguém para cuidar destes mais velhos. Exagero? Tomara.

________________ XXXXX ______________

Ao lado da minha casa tem um semáforo inútil. Ele regula uma faixa de pedestre onde pouquíssima gente cruza. E mesmo que muitas pessoas passassem, aqui os carros automaticamente param quando veem um pedestre se aproximar da faixa. Mas o fato é que o tal sinal existe. E sempre que me aproximo, está vermelho. Sou carioca. A vontade de avançar grita no meu ouvido. Mas não avanço. Nunca. Mesmo que seja de madrugada, mesmo que não veja ninguém a quilômetros de distância, mesmo que não exista nenhuma uma chance de um policial aparecer, mesmo sem radar por perto. Por que? Porque aqui aprendi uma coisa bastante óbvia que tinha desaprendido no Rio: vermelho a gente para; verde, passa. Ridículo, não? E como todos obedecem a esta regra boba, meus filhos pequenos andam de bicicleta sem problema. Verde para pedestre, eles passam. Olha que incrível!
Já sei que muitos no Rio me dirão que se ficam parados em uma rua deserta serão presas fáceis para os assaltantes. Bom argumento. Ainda me lembro de como é a sensação de dirigir vigiando quem passa por detrás do carro. Carioca tem mil olhos. Mas vamos combinar que a história do assalto vira desculpa para todos os sinais e a qualquer hora dia. O que faz com que meu medo maior no Brasil não seja a violência do assalto e sim a do trânsito.

________________XXXXX________________

Eu sempre amei o mês de janeiro. Férias, praia, verão, calor, prévias de Carnaval. Mas aqui é tudo ao contrário. Janeiro é o mais melancólico dos meses. E não sou eu quem diz. O dia 16 de janeiro foi escolhido como o dia mais triste do ano numa enquete. As férias de Natal já passaram, não tem feriado à vista, ainda falta muito para a Semana Santa e para o final do inverno. Além disso, as contas dos presentes de Natal batem à porta e os quilos das festas sobem à balança. Quer coisa pior? Pois tem! Ver as fotos dos amigos no janeiro brasileiro! Mas falta pouco para acabar. Vai passar. Em agosto, a gente se vinga!

__________________XXXXX________________

Semana passada li no El Pais que nós os humanos somos uma das poucas espécies de animais em que a mulheres vivem além da sua idade fértil. Na maioria das outras espécies, a expectativa de vida das fêmeas coincide com sua capacidade de reproduzir. Já nós mulheres vivemos muito além da menopausa. Dizem os pesquisadores que isto se deve a como evoluímos como espécie. As avós foram importantíssimas para a sobrevivência humana desde a época das cavernas. Toda mulher que contava com ajuda para cuidar da sua cria tinha mais possibilidades de fazer esta cria chegar à idade adulta e assim perpetuar os seus genes.
Não sou antropóloga, não entendo nada desta área. Mas se não fosse a avó dos meus filhos, te asseguro que a sobrevivência aqui de casa seria bem mais complexa. Um viva para todas a avós!

Comentar