Ficar e partir

Teve o dia em que fiz a mala, a mudança, vendi eletrodomésticos, deixei meu amado Rio de Janeiro e fui para o Recife. Teve outro em que fiz três malas, mandei a mudança para a casa dos pais e vim para a Espanha. Em cada um destes dias teve lágrima, choro, saudade, vontade de ficar, de desistir, de me esconder debaixo da cama. Mas também teve a grande vontade de partir para o novo, o desconhecido. Novo é bom. Pelo menos para mim. O novo desafia, faz sonhar, dá medo, seduz. O novo te obriga a ser outro, a sair da redoma protetora, a ir à luta, ao “te vira”, “dá teu jeito”. O novo é uma oportunidade. Eu tenho Phd em recomeços.
Sempre pensei que é muito mais difícil para quem ficou. Porque quem ficou – a família, os amigos – tem a ausência sem ter o novo. Tem a saudade sem ter a oportunidade. Tem o passado, um presente incompleto e um futuro não planejado. Por isto as lágrimas dos que ficam sempre são as mais duras. Pelo menos sempre pensei isto. Talvez para alimentar um pouco mais o sentimento de culpa que os que partem sempre têm.
Mas como sempre estamos aprendendo, esta semana estivemos do outro lado. Dos que ficam, não dos que partem. Amigos queridos, a tal família expandida, se foram para outras terras, levados pelo trabalho. Pude ver-me neste espelho de tantas lembranças: a dor da saudade antecipada, a alegria da mudança, o estresse burocrático, a expectativa, o receio, todos os sentimentos misturados. Mas desta vez do outro lado, viver a expectativa do novo sem mudança. Dos que veem partir, não dos que vão. Do medo da ausência. E não é que para quem fica também existe o novo? Nunca tinha pensado nisto. Porque cada lugar está feito de pessoas, de relações. Um lugar sem encontros é só um espaço vazio. Se não estão as pessoas, uma nova cidade passa a existir.
Não é a cidade sonhada, desejada. Não é uma cidade escolhida. Mas certamente é um novo lugar. E não, nunca é fácil recomeçar. Vamos nós outra vez para o “te vira” e o “dá teu jeito”. Reinventar. Sair da zona do conforto uma vez mais. Com o cômodo que é estar na zona de conforto… ai meus sais, lá vamos nós de novo.
Aí entendo melhor a estranheza que sinto quando chego no Rio. A cidade não ficou parada no tempo esperando minha volta. Custa encontrar onde está meu espaço neste emaranhado de sentimentos. Empurrar um pouquinho para o lado cada mudança encontrada, para meter outra vez meu nariz, um braço, quem sabe um corpo inteiro. Não, a cidade não é mais a mesma. Não porque fizeram um montão de obras e o metro chegou na Barra, mas porque as relações são diferentes. Elas seguiram a despeito de mim. Que bom! Como a metáfora do rio que corre, a vida vai seguindo. A saudade encontra seu espaço e se acomoda. A cidade não é mais a mesma, mas pode ser outra. E o novo sempre é difícil, mas também pode ser bom. Para os que vão e para os que ficam. Mas que ninguém se preocupe. Deixamos sempre o espaço para a volta.

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