Oráculos

Acabamos de voltar de um delicioso fim de semana prolongado na praia. Claro que em dezembro, praia, praia mesmo, não dá. Mas vimos o mar, passeamos, comemos bem e, principalmente, tivemos tempo de sobra para brincar com os meninos: jogar às cartas, Ludo, correr pela areia. Enfim, tudo de bom. Mas nós quase não fomos. A previsão do tempo era péssima. Indicava chuva e mais chuva. Ficamos na dúvida até o último minuto, mas decidimos arriscar. “No final das contas, se chove mesmo, iremos ao cinema, visitaremos algum museu, que sempre tem algum por perto.”- pesamos.
Afinal, a chuva que caiu foi toda de noite. O dia nublado, mas sem nenhuma gota de água, não nos impediu de aproveitar o ar livre e nos divertir bastante. Eu me felicitei por não ouvir ao oráculo da previsão do tempo. Sempre querendo antecipar nosso sol e nossa chuva. E como são quatro horas de carro até esta praia, as crianças dormiam tranquilamente no banco de trás, a música era boa, me dei o luxo de fazer o voar o pensamento e cheguei justo nesta palavra: oráculo. Como nós gostamos dela, na nossa ansiedade de prever e controlar o futuro a quantos recorremos: dos chamados oráculos da economia, que preverão o destino dos nossos trabalhos e dinheiro, ao mais prosaico horóscopo dos jornais. É da natureza humana. Mais ainda nesta época de fim de ano, quando queremos todas as previsões para 2017.
O oráculo mais famoso é o do Édipo Rei. Adoro esta história. O cara fala para o Rei Laio:
“- Olha só, teu filho vai te matar e depois ainda se casa com a tua mulher.”
Laio, obviamente, manda dar um sumiço no menino. O serviço não é bem feito – nunca é – e dá no que dá: Édipo mata seu pai, que ele não sabia que era seu pai, e casa com sua mãe, que ele não sabia que era sua mãe. Tragédia armada. Mas, se Laio não tivesse dado ouvidos ao oráculo, se tivesse criado seu filho com amor e carinho, dificilmente este teria motivos para matá-lo e ainda menos para se casar com sua mãe. Péssima ideia esta de prever o futuro.
Meus filhos quando nasceram, ganharam de bem intencionadas e queridas amigas suas cartas astrais. Sei que Hugo é Escorpião e Carol é Áries. E nada mais. Confesso agora, queridas amigas, que nunca li os tais mapas. Não queria, nem quero, ter uma ideia pré-concebida dos meninos. Já sei que a ideia é ter um autoconhecimento, mas mesmo assim. Prefiro a surpresa do dia a dia.
Tudo isto também veio ao pensamento por causa do último filme de vi no cinema: The Arrival (A chegada). Já viram? Pois se não, cuidado que tem spoiler neste parágrafo. O filme trata de uns extraterrestres com forma de lula gigante (o animal, não o ex-presidente) que aparecem em várias partes do mundo. Para tentar se comunicar com eles, chamam uma super linguista. A moça defende uma teoria – real – de que o cérebro de quem aprende uma outra língua muda. Porque cada idioma faz nosso cérebro e nosso entendimento do mundo funcionarem de um certo modo. Ao aprender outro idioma, nossa forma de ver o mundo se transforma. Adoro esta teoria e assim, sem mais conhecimento que este, posso concordar com ela.
Pois a tal moça aprende a língua das lulas (eu sei, é assim de ridículo) e por isto começa a ter um outro entendimento do tempo. Pois o tempo para as lulas alienígenas não é linear. Eles vivem em vários períodos de tempo ao mesmo tempo. Uma confusão mesmo. Mas o resultado prático é que a moça começa a ter visões do futuro. Visões de um bom futuro. Mas também de uma tragédia horrível. E ela decide não tentar mudar este futuro. Ao contrário do Rei Laio, ela aceita viver a tragédia. O que nos faz sair do cinema pensando: será?
Não creio. Nós somos muito mais parecidos ao Rei Laio. Se eu sei que algo de ruim vai passar, tentarei mudá-lo. Nenhuma força humana, nem mesmo de lulas alienígenas, me impediria de tentar evitar o sofrimento a uma pessoa amada.
Está na nossa natureza tentar buscar respostas para o futuro. Para nossa tranquilidade. Mais ainda quando criamos a pessoas que terão um futuro maior que o nosso. Mas andam dizendo que o futuro já não é mais o que costumava ser. Uma forma divertida de dizer que a verdade é que ninguém sabe o que nos reserva. Estamos no tempo das incertezas. Trabalhos, paz financeira, aposentadorias, já não sabemos mais nada. Melhor o hoje. Sempre.
Quatro horas de carro dão para muito.

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