Aprendiz

Já faz quase nove meses que assumimos a educação dos nossos filhos em casa. Há quase um ano, era o tema que temperava os preparativos para mais um Natal balinês. Neste que se aproxima, já em Singapura, é alimento concreto, escolha inusitada, para alguns tresloucada, mas aquela que hoje faz mais sentido para o nosso presente. Não era um passo planejado ou desejado. Assim como não foi um passo para o acaso. A ideia foi amadurecida em dois anos, em dois continentes distintos. Consultamos amigos, conhecidos, professores, tutores, psicólogos, médicos, tarólogos. E quanto mais conversamos, mais vimos a opção como uma possibilidade.

Hoje, acordo mais cedo, saio para a yoga, estudo ou escrevo antes do dia da família começar. Volto para terminarmos nosso café da manhã juntos e, assim que coloco meus óculos de tutora, iniciamos a escola, o trabalho, o lazer. Compartilhamos quase tudo: as confusões que invadem os corredores entre atividades, o silêncio das horas dedicadas às leituras individuais, a contação de histórias em conjunto, as descobertas que se descortinam aos olhos de quem ainda vê o mundo como um milagre, os desafios de quem quer fazer e nem sempre consegue, as pequenas conquistas, as grandes conquistas, o tédio, os privilégios de quem pode ir ao parque ou ao museu numa manhã qualquer de quinta-feira. Vivemos no limiar, entre a disciplina e o caos. João chega no fim do dia. Me dá um suporte danado e esta lá firme, forte e companheiro naquilo que muitas vezes é o meu monotema. Volta e meia escapamos para um cinema, uma festa, um bar com os amigos, coisas que já encontro espaço para curtir novamente.

Em casa temos um acordo de trabalho a ser cumprido, estabelecemos juntos as nossas metas. Alcançamos algumas delas, outras ficam mais distantes e, às vezes, de tão distantes, deixam de ser metas, viram ideias flutuantes, que um dia, distraidamente, cumprimos sem perceber. Nos questionamos com constância, repensamos, fazemos de outro jeito. Vamos acertando e errando, um pouco para um lado, um tanto para o outro e mais distraídos no processo, avançamos boas casas para a frente. Estabelecemos uma dinâmica onde tudo parece ser mais possível.

E neste caminho intenso, porém menos urgente, temos nos divertido e celebrado evoluções importantes pelas quais vínhamos batalhando há tempos, enquanto insistíamos na rotina entre escola, casa, terapias, atividades, etc. Rotina em que também fomos felizes, colhemos frutos, em uma terra de onde trouxemos muitas sementes e uma gratidão profunda por nos ter ensinado tanto. Foi em Bali que nossa perspectiva de experimentar educação em casa não nos pareceu tão absurda. Na escola por onde passamos não faltaram exemplos de pais que educaram seus filhos em casa, em algum período de suas vidas. Muitos o fariam ou o farão novamente. Outros nem tanto. Nós resolvemos tentar.

Nos demos um direito a ter mais tempo, foco, atenção, espaço para refletir, investigar, dedicar a uma dose de detalhes que precisavam desta convivência. Mas não da convivência fechada e reduzida à família. Para nós, um ponto importante da educação, principalmente em tempos tão tumultuados, é aprender a conviver com o outro e com a diversidade. Logo, não conseguiríamos estar em paz se estivéssemos sós.

Por sorte, conseguimos criar laços e, para além dos bons amigos com quem nos reconectamos em Singapura (de tempos de Brasil, Portugal e Bali), a Terra do Leão é um dos muitos berços onde a comunidade do chamado “Homeschooling” cresce exponencialmente. Fazemos parte de três grupos diferentes, onde nativos da terra, dos EUA, Austrália, Nova Zelândia, África do Sul, Paquistão, Egito, Inglaterra, Holanda e outros cantos remotos do mundo se encontram periodicamente para dividir experiências, aventuras e aprendizados nesse caminho ainda muito novo para mim, a única brazuca do grupo.

Ainda não sabemos dizer se seguiremos nesta estrada por muito tempo. É claro que sonhamos que um belo dia cada um encontre seu caminho, que troquemos impressões sobre mil novidades, sobre as quais não teremos participação alguma, quem sabe conversaremos pessoalmente, quem sabe por meio de linhas que nos aproximarão apenas pela distância de um clique. Mas para isso, ainda precisamos passar por essa estrada, caminhando juntos, de ombros leves, um pé depois do outro, sem pressa, sempre em frente. E enquanto for preciso, espero sermos capazes de, entre curvas tortuosas e montanhas elevadas, transformar esse imenso agora no nosso maior presente.

 

 

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Comentários

  1. Que demais, Bia! Fiquei morrendo de vontade de bater papo com você! Passei por essas curvas tortuosas e essas montanhas altas nos últimos dois meses, quanto tivemos uma experiência curta de Homeschooling por conta de uma mudança temporária para a California. Apesar de trabalhar com Educação, me senti totalmente aprendiz nesse processo de compartilhar, escutar, improvisar, errar, refletir, fazer diferente. Tinha dias em que eu ficava totalmente sem energia, outros em que perdia a paciência e depois me sentia a pior das mães. Mas vivi algumas das experiências mais lindas também. De um dia pro outro, por exemplo, o Luca começou a ler placas pela janela do carro, e ali nasceu uma parceria deliciosa entre a gente, descobrindo palavras e um mundo novo a cada dia, guiados mais pela intuição do que qualquer manual. Os meninos voltam à escola em fevereiro, quando estivermos de volta no Brasil. Mas o protagonismo e o vínculo do homeschooling é algo que vamos continuar cultivando nas horas que temos juntos. Tiro meu chapéu pra você e pra todos que se entregam a essa jornada. Lindas descobertas pra vocês, Bia! E continue dividindo com a gente, tá? Um beijo grande.

  2. Bia , uma grande experiência. Gosto da sua fala e acredito nessa pratica contruida dia-a-dia. Um grande caminho a ser percorrido e numa dinâmica que só vcs saberão reconhecer. Contruir um caminho em suas multiformas, assim como é o pensamento. Bj Querida

  3. MARAVILHOSO TEXTO e MARAVILHOSA CORAGEM DOS PAIS! Se hoje tivesse filh@s pequenos , tempo e oportunidade para tomar essa decisão é o que faria.Já no meu tempo era seduzida por experiências pioneiras que surgiram muito de SUMMERHILL Depois, só o MOVIMENTO DA ESCOLA MODERNA me animou. “Escola” – como a percebemos hoje – foi antro do qual sempre quis fugir e se aprendi algo foi fora dela..
    Gostava de vos acompanhar (sou Amiga da Graça há muito tempo desde quando o João era um menino lindo de cabelo negro encaracolado com espessas pestanas) PARABENS! BELOS PAIS!!!!

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