Overparenting ou ser pais em excesso

Overparenting é uma das palavras da moda aqui na Espanha. Pelo menos nas matérias dos jornais e blogs dedicados a mães e pais. Aliás, quantos textos dedicados a mães e pais! Inclusive este aqui. E, por isto mesmo, a tal palavra de moda, que quer dizer ser pais em excesso. Estar sempre em cima do filho. Preocupado com os deveres, inscrevendo-os em tudo quanto é classe: piano, violino, xadrez, ginástica, desenho, inglês, francês, chinês e qualquer outra coisa que possam inventar. Tudo visando melhorar todas as “ferramentas” dos filhos, na esperança de que tenha as melhores “oportunidades” de trabalho no futuro.
Mas não é só o trabalho remunerado. Overparenting também significa estar em cima do professor (ou professores), dos amigos do filho, resolvendo para eles todo e qualquer conflito. Estar preocupado com as brigas entre as crianças, obrigar a pedir perdão – mesmo sem sentir – no primeiro empurrão durante uma brincadeira. Estar obcecado com a alimentação, com o glúten, com a lactose, com os saturados… Ter na ponta da língua a lista dos livros imprescindíveis, começar a “estimular” o bebê ainda na barriga, bebê Einstein, bebê Mozart, para que a criança já saiba ler com três anos. E, depois de tanto estímulo, esperar que a criança fique quieta e tranquila em um restaurante. Ser pai moderno é muito estressante!
Em um mundo tão competitivo, individualista, em que a relações estão cada vez mais mediadas pela tecnologia, ser pais é uma das poucas trocas reais que temos no nosso dia a dia. Mas mesmo esta relação tão profunda está se tornando uma competição, uma corrida contra o tempo para ter o filho perfeito. Sim, perfeito. Aquele que é a nossa medida do mundo. Aquele vai ser melhor que a gente. Aquele que é nosso reflexo, onde a sociedade olha e nos vê. Aquele que ao fazer qualquer coisa, seja boa ou má, nos fará ouvir: responsabilidade dos pais! Culpa dos pais! Também com estes pais… e ninguém quer ouvir isto. Filho está parecendo curriculum. O meu já faz isto, o meu já trocou os dentes, o meu já calça 32, o meu já… Coloque o que você quiser nesta lista.
Criança aqui na Espanha é bicho cada vez mais raro. O país tem uma das menores taxas de natalidade do mundo e ano passado já morreram mais pessoas que nasceram. Isto explica em parte este excesso de preocupação com os filhos. Antes as famílias tinham muitos e não tinham nem tempo, nem dinheiro para tanto estímulo. Agora o mais comum é ter um ou dois filhos. Ter três ou mais é raro e aqui já entra na categoria “família numerosa”, o que dá direito a descontos em impostos, no cinema, no supermercado, entre outros lugares. Com tão poucas crianças, é normal que as coloquemos em um pedestal. Ou, pior, como um troféu na estante.
Eu mesmo posso vestir a carapuça em muitas destas situações. Quem não? Queremos ser bons pais obviamente. Mas será que estamos sendo pais em excesso? Onde está o meio termo entre o overparenting e a terceirização dos filhos, tão comum nas classes mais abastadas no Brasil? Porque se pensamos assim, é melhor ter um pai ou mãe sempre em cima, que ter uma babá para tudo e todas as horas.
Ninguém nasce sabendo ser pai ou mãe e encontrar nossos limites, nossos erros e acertos é o nosso dia a dia. É o que sabemos fazer melhor. Mas pelo menos, que estes erros e acertos sejam nossos. O que não dá é transferir para outra pessoa esta responsabilidade.

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