Amanhecer com filhos

O despertador toca às 5h40, levanto e faço uma saudação ao sol que ainda não nasceu. Observo meus três filhos que nasceram ainda adormentados e penso nos meus dois filhos que não nasceram. Sinto todos eles comigo em mais um dia de vida e, assim, na simplicidade da existência, me dou conta que está tudo bem, mesmo com as dores desilusões. Passo BB Cream no rosto de 42, renovo meus cílios, que eu possa olhar o novo dia com reverência.

Passo 1. Preparo urgentemente meu café com espuminha de leite. Sem ele, não, não é possível. E aí preparo primeiro a merenda. Para a mais velha, torradas integrais e uma fruta. Para o menino, cream cracker de gergelim e pelo menos um cookie (por favor, mamãe, sou tão fleumático…). Para a pequena basta uma fruta para compartilhar com a turma. No jardim de infância a professora prepara com eles o lanche, um bolo, quirera, cevada.

Tudo na mochila. É hora de preparar o café da manhã da galera. Para a mais velha, cereal integral com coalhada. Para o menino, suco de fruta e biscoito de leite. Para a caçula, cereal de chocolate com leite e uma bisnaguinha com manteiga. Mesa pronta.

“Logo de manhã, bom dia, logo de manhã…”, hoje vai de Zizi Possi. Ontem foi Lucio Dalla, “Cosa sarà”. Antes de ontem, “Zucca Pelata”do Sergio Endrigo. E amanhã…”Tocando em frente” com Maria Bethânia. Sim, vou tocando em frente porque hoje já me sinto mais forte.

Primeiro chamo a mais velha, que aos 11 anos já passa um tempão escolhendo roupa, penteando os cabelos. Aí parto para o menino, que odeia escolher a própria roupa, devo entregar a calça, a camiseta e as meias nas suas mãos. Mas ele faz questão de me dar um beijo bem molhado de bom dia e me abraçar. Ah, o afeto, reabastece. Hora de atacar a preguiçosa pequena de sardas, que adora ser vestida ainda dormindo, mole e largada, uma ginástica para enfiar a calça, o vestido.

Todos à mesa. Agradecemos pelo novo dia. O Sol, quando tem sol nessa terra nublada, nos saúda. Falamos dos nossos planos para o dia. Terminaram? Escovar os dentes e colocar os sapatos! Rápido! Agora! Já estamos em cima da hora! Retiro a mesa, minha linda mesa chamada “Afeto”, ponho a toalhinha rendada e a orquídea de volta ao centro. A beleza.

Afeto e beleza. De que mais precisamos nessa vida? De pressa! É hora, nem pensar em atrasos, um adeus para o Chico, nosso filhote York, mochilas nas costas, “apertem o botão do elevador, vamos embora!”. Garagem, entra um, entra outro, põe cinto. Lá vamos nós! 25 minutos de carro até à escola, ouvindo música, pegando o jornal grátis no sinal, falando de política, de sentimentos, de brincadeiras, de amigos. Na porta da escola deixo os mais velhos. Estaciono. E levo a pequena até à porta da sua sala de aula. A professora a abraça, ela tira os sapatos, põe a pantufa e me dá um beijo.

Todo dia ela faz tudo sempre igual. E se sente infinitamente feliz por essa grande oportunidade de ser mãe.

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