O que vem, o que sai e o que fica.

Era o fim do dia e as crianças, felizes, brincavam com as vizinhas do prédio. Com eles tranquilos saí para me restaurar. Andava mesmo precisando mexer em qualquer coisa. Refletia sobre raízes, sobre o quanto gosto de sentir os pés firmes tocando o solo, esticar o tronco, me deixar crescer de um jeito em que me sinta inteiramente eu. Resolvi aparar as madeixas, como se aqueles cabelos longos, que já não me pertenciam há tantos anos, fossem os fios que me afastavam de mim mesma.

Fiz as contas que nunca tinha feito: mais de meio ano em terra nova. O Facebook me cutucava memórias: dois anos de um texto em que dizia que, em três meses de Bali, já nos sentíamos em casa. A casa que me ensinou que para cada manhã existe um horizonte diferente.

Na morada atual já aprecio o verde que me envolve, a proximidade da cidade, os museus, os novos amigos, os velhos amigos na terra nova. Mas de quanto tempo preciso para pisar firme outra vez? Meus passos ainda são mais incertos do que imaginei que seriam, as ideias flutuam inconstantes entre momentos onde os ganhos são evidentes e outros onde meu olhar navega indeterminado, um pouco acima da altura do asfalto, não muito mais alto do que isto.

A distração me persegue e lampejos de uma história recente levam meu foco para a grama do canteiro verde, felizmente sempre verde. Lá encontro a Dormideira ou a Mimosa Pudica. No Brasil, a tal da planta tem nomes diversos. Na Indonésia é chamada de Putri Malu, cujo significado é Princesa Tímida. Os pequenos ramos que aparecem no meio da rua arborizada, quebram a monotonia das gramas pontiagudas, igualmente aparadas, e se fecham quando são tocados, em busca de autoproteção. Me agachei no canteiro, a encostei. Dormideira estava acordada, não quis se fechar, nem a que se encontrava logo ao lado, nem a outra mais adiante. Os impulsos naturais de proteção haviam se dissipado. Ela estava aberta, entregue, fácil.

Alguém me disse que a tal Dormideira, vem lá da mesma América de onde brotei. Mas estranhamente já a vi fincada por diversos solos de cantos asiáticos. Envolta pela vibração dos húmus tailandeses; se avizinhando à fibra e a beleza que emergem do lodo histórico em forma de Flor de Lótus dos vietnamitas; coroada como a princesa, timidamente bela, da Indonésia. E também aqui, nesses solos que testemunham a determinação e a receptividade da terra do leão de jubas fartas e visão de longo alcance: Singa Pura.

Segui caminhando pela cidade, queria mesmo aparar as madeixas. Obviamente que não era a juba que me tirava o centro, mas a vontade de tirar as sobras e deixar apenas o que fortalece a essência. Já de cabeça mais leve, com um corte que ainda não me moldava, errei o caminho. Desci no andar mais alto do prédio e um mantra no final do corredor me chamava para perto. A placa não era grande, mas o conjunto das letras me traziam de volta a uma trilha já conhecida: Y.O.G.A.

As salas ao lado estavam lotadas de colchões, cercadas de espelhos e vidros fechados, que iam do chão ao teto. Me aproximei da janela, olhei para o alto e vi o céu. Olhei para baixo e vi a rua cheia de cabeças; sozinhas, cabisbaixas, lentas, acompanhadas, balançantes, determinadas, velozes. Para casa, para o café, para o trabalho que invade o final de semana, para o templo, para o cinema, para o bar encontrar os amigos e rir da semana que passou. Pequenas partículas de histórias, que vêm e que vão, num eterno abre e fecha, aprendendo a gostar, a procurar um canto, um tempo, um templo, para lançar as sementes e ver sem pressa a raiz crescer.

Comentários

  1. Especial, como sempre, Bia! As imagens da dormideira são lindas e refazem o espaço entre a criança e o adulto que se apoderou daquele corpo que magicamente cresceu, mas mantém os dedos prontos para retomar as lembranças que cochilam em algum canto. A melhor resposta foi a de não querer se subverter à vontade do outro – durma! Não, agora não é hora! Sempre penso que cabelo é uma coisa com vontade própria e, é impossível não me lembrar do Arnaldo Antunes, que disse que “… Cabelo vem lá de dentro, cabelo é como pensamento…”. Pois então, desta forma, realinhar o cabelo faz parte daquilo que cresceu e teima em não dormir, para que nos mantenhamos em alerta, uma resposta. Uma raiz que cresce de nós mesmos e se apruma no rosto, num contexto das sensações. Singa Pura. Bjs Querida

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