Desrespeitaram Elena

Descobriram, na Itália, que Elena Ferrante pode ser a tradutora de alemão Anita Raja. Ela trabalha para a editora e/o, que publica os livros da misteriosa escritora italiana. Elena Ferrante, independente de quem seja, é a autora que tem revirado cabeças, corações e o mercado editorial nos últimos anos. Além de feminista, é mulher. Mergulha na essência da maternidade. Questiona cada conquista, nos coloca contra a parede, grita contra nossas convicções.

O nome fictício escolhido é uma clara homenagem à escritora Elsa Morante, um clássico da literatura italiana, que escreveu “A História”, um romance épico sobre a maternidade na Segunda Guerra Mundial. Único livro dela publicado no Brasil. Elena Ferrante já disse várias vezes o quanto a obra de Elsa influenciou suas escolhas narrativas. Eu sou pesquisadora de Elsa Morante há anos e confirmo. Em 2010 defendi uma dissertação de mestrado em Letras na Universidade Federal do Paraná sobre a Elsa Morante, que será publicada pela editora Multifoco, do Rio, em dezembro de 2016. Espero que nos próximos anos consiga publicar a tradução dos outros livros da Elsa no Brasil.

Sim, será uma grande contribuição para o pensamento feminino, a reflexão sobre a função social e cultural da maternidade. Elsa Morante e Elena Ferrante – seja ela ou não Anita, não importa – são frutos da sociedade machista italiana, tão latina quanto a nossa, mas que ofereceu condições de colocar em discussão com sentimento, ideologia e convicção o papel da mulher na sociedade. Amar sim, mas sem se perder. Trabalhar, mas sem se consumir. Procriar, mas sem se esquecer.

Elena Ferrante não queria ficar famosa, não quer ser reconhecida pelas ruas de Roma, não quer ser parte do show da sociedade de consumo. Desejava simplesmente escrever o que viu, ouviu, sentiu para trazer à superfície o quanto é profunda a transformação que a mulher viveu nas últimas décadas. Infelizmente um jornalista econômico do jornal “Il Sole 24 ore” investigou a folha de pagamentos da editora e/o e chegou a conclusão que os ganhos da tradutora de alemão não se justificavam e que coincidiam com sucesso das publicações de Elena Ferrante. Que pena esse desrespeito com a privacidade e com o talento da escritora.

Talvez chame mais ainda atenção sobre a sua obra, traduzida pelo mundo todo, um sucesso. Elena é Proust, um Balzac. Ele faz um retrato da sociedade através de personagens intensos e quase reais. Escreve livros de 400 páginas que fluem como o rio que desagua no mar. Ler Elena é um deleite. E ela fala de mulher, de filhos, casamentos, trabalho. Eu a procuro sempre. Desde que ela entrou na minha vida tem sido uma companheira pra entender tantos desafios que enfrentamos nessa era para sermos mães e mulheres mais conscientes do nosso papel.

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