Adolescentes do Paraná nos lembram que estamos no mesmo barco

Criamos nossos filhos preocupados com a competitividade. Conversando com uma mãe na porta da escola esses dias, chegamos à conclusão de que o problema da competição é da nossa geração. A dos jovens adultos de hoje é o individualismo e o narcisismo. Não sabemos como serão nossos pequenos melequentos quando serão grandes, mas duas adolescentes, que nesses últimos dois dias viralizaram na Internet, mostram um caminho que alenta nosso coração de mãe. Ana Vilela tem 18 anos. Ana Júlia Ribeiro tem 16 anos. Não parecem muito vaidosas, são sonhadoras com os pés no chão, são articuladas e refletem.

A insatisfação com o mundo em que é o dinheiro e o poder que mandam é o principal fator de incômodo entre essas adolescentes. Ana Júlia faz parte de uma ocupação da escola pública onde estuda em Curitiba, no Paraná. Ela critica a reforma do ensino médio proposta pelo governo, que não atenderia às reais necessidades de formação dos jovens. Ela quer ter o direito de pensar, não quer ser chamada de “doutrinada”, mas quer que a política faça parte da sua vida de estudante. Por isso rechaça a proposta de “escola sem partido”. Ana Júlia quer debater, quer interlocutores, quer dialogar. Na Assembleia Legislativa do Paraná, onde ela falou, seu microfone foi desligado. A quem interessa calar os jovens adolescentes?

Ana Vilela trabalha em um projeto social de musicalização de crianças e compõe. É uma menina poeta. Fez uma canção simples, voz e violão, sem armação, videoclipe, luzes especiais. É só ela e seu olhar ainda infantil. É uma canção “sobre cantar e poder escutar mais que a própria voz”. A recusa do individualismo, a busca pela cooperação, a solidariedade, ouvir o outro e pensar no outro em cada passo que damos no mundo. “Não é sobre chegar no topo do mundo e saber que venceu”, canta a menina. Não adianta, né, filhos? a gente pode até chegar no auge…mas o vazio de não ter com quem dividir, o consumismo sem razão de ser, o poder pelo poder, a tristeza que ele pode trazer…

Essa outra menina vem de Londrina, também do Paraná. Coincidência talvez. Mas o Sul esquecido, recusado, quer fazer de alguma forma ouvir sua voz. É uma parte do Brasil de história mais recente, formada por imigrantes ainda em integração, com seus excessos morais provavelmente, mas que vai dando passos em direção aos microfones pra cantar, discursar, existir, pensar. “A gente não pode ter tudo. Qual seria a graça do mundo se fosse assim?”, pergunta Ana Vilela. “Nós temos que fazer um esforço enorme pra criar um pensamento, pra ler o que a mídia escreve e criar um pensamento nosso”, explica Ana Júlia.

Hoje, ao colocar meus filhos para dormir, dei um beijo de boa noite com mais esperança. Deve sim ter um mundo melhor vindo por aí. Por isso escolhemos ser mães. Povoar a terra com gente de bem, que sonhe e pense, que leve poesia até no trabalho mais duro, que lute com lágrimas nos olhos. Agradeço às mães dessas Anas, estamos nessa rede juntas.

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