Sobre equinócios e recomeços sem fim

Todo mundo tem um sonho para realizaaaar…

Oi, filha

Você está aí cantarolando no chuveiro, seu momento particular de felicidade. E hoje é dia de equinócio, de primavera por aqui e de outono em outros cantos do mundo. É a data única em que dia e noite ficam do mesmo tamanho, exatas doze horas. Duas metades. Daquelas definições criadas para apreender o nosso tempo.

É um dia em que eu gosto de parar um pouco para pensar nos ciclos que se fecham e se abrem. Eu e minhas listas ilusionistas na busca de aprisionar e me dar sentido para as realizações.

Mas hoje só lembrei disso quase no fim do dia, muitas horas depois do momento em que o sol cruzou a linha do Equador. Talvez porque os dias não têm sido fáceis. Talvez porque o inverno tem sido mais duradouro e hostil do que eu esperava.

O homem é o sal da Terra. Na aula de hoje assistimos o documentário sobre Sebastião Salgado. Vida e obra. Mas que falou para mim muito mais da espécie homem que cria, transforma e destrói. Em capilaridades infinitas onde você não enxerga com clareza inícios e fins, ações e reações. Mas sente o processo e as relações de poder ali inerentes e presentes.

Os tempos desse mundo andam estranhos e complicados.

Nesse dia de equinócio leio que não vamos mais ter arte nem filosofia nas escolas, observo o descuido com a colega mãe recém-parida, ouço que um menino de cinco anos acha que quem tira nota baixa é perdedor. A gentileza tem perdido espaço. Isso me desencanta, me entristece, me envergonha. “Os anéis de uma serpente são ainda mais complicados que os buracos de uma toupeira”, me gritava e problematizava o Post-scriptum de Deleuze.

E da tristeza que me imobiliza, ouço, de novo, você cantar lá do chuveiro.

“Todo mundo tem um sonho pra realizaaar“.

O tempo é de semear. Sempre é, equinócio ou não, sem data marcada.

Sim, vamos lá de novo, a mais uma volta.

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