Precisamos falar sobre preconceitos

– Ah, você é brasileira? Meu namorado também! Quem me apresentou foi minha professora de dança. A princípio não queria. Sabe como é… não gosto de morenitos (sic)… mas não é que ele é mais branco do que eu?! Fiquei muito surpresa em saber que no Brasil tinha mais brancos que negros! _ contou a moça que estava ao meu lado, dividindo a mesma espera.

– Você já foi ao Brasil? – perguntei.

– Não, tenho medo. As favelas… a macumba (sic)…

– Macumba? Não entendi.

– Sabe como é… pessoas que fazem feitiço contra outras.

Suspirei. Poderia ter esclarecido que afirmar que não gostava de morenitos era para mim uma ofensa pessoal. Que ao contrário do que ela pensava, no Brasil somos todos negros, mesmo que para alguns seja duro admitir. Que reduzir as religiões de matriz africana ao termo macumba era no mínimo ignorância preconceituosa. E o triste é que ela provavelmente aprendeu o termo e o preconceito com o citado namorado brasileiro. Suspirei. Só respondi:

– As religiões de origem africana são iguais a qualquer outra religião. Você acredita na Nossa Senhora Del Pilar, outras pessoas acreditam em Oxum, Iemanjá… Qual é a diferença?

Ela me olhou incrédula.

Passado alguns dias, uma amiga brasileira conta que uma outra amiga em comum – negra –  foi humilhada ao matricular o filho em uma escola pública. A diretora da escola disse ela deveria voltar ao Brasil com seu filho. Deixou bem claro que o menino não era bem-vindo. Foi bastante grosseira e a moça brasileira saiu da escola chorando.

A história se espalhou rápido e ela conseguiu a solidariedade da associação de pais da escola, em guerra constante com a tal diretora. Fez uma queixa formal à administração pública e à ONG SOS Racismo. E obviamente levou o menino a uma outra escola, onde ele foi bem recebido.

Os dois casos na mesma semana me surpreenderam. O racismo explícito não é tão comum assim. Pelo menos não aqui. Estamos mais acostumados com as alusões, à falta de boa vontade, às piadinhas de duplo sentido. Mas na maioria das vezes não com os brasileiros. Não somos muitos e nos integramos bem. O brasileiro está mais associado a coisas positivas que negativas. Sofrem mais os sul americanos de aparência indígena (equatorianos, bolivianos…), os árabes, os africanos. Eu mesmo nunca sofri na pele nenhum caso de preconceito, mas já ouvi piadinhas com sobre brasileiras, a maioria de cunho sexual, que respondi usando a mesma ironia. Ou diretamente fechando a cara e ignorando. Felizmente, foram poucas vezes nestes 11 anos de Espanha.

A imigração ainda é algo recente por aqui. Meu lado otimista acredita que já estamos na segunda geração de imigrantes e cada vez encontraremos mais pessoas das mais diversas origens fazendo todos os tipos de trabalhos e ocupando os postos mais diversos. Meu lado pessimista ainda crê que isto vai demorar. Que por enquanto, para disputar um trabalho, o peso da origem do sobrenome do candidato no currículo ainda é maior que suas qualidades. Estes dois lados – otimista/pessimista – ainda vão caminhar juntos por um tempo.

É mais fácil lutar contra o racismo quando ele é explícito. Dá para colocar a boca no trombone, denunciar pelas vias legais. O complicado é lutar no dia a dia contra as etiquetas que vêm associadas a cada país e a cada origem. Mas isto não é muito diferente do Brasil. Nordestino, suburbano, favelado, crioulo, macumbeiro… vamos espalhando nossos preconceitos ao vento. Não deveria me surpreender que chegassem até aqui para se somar aos preconceitos locais

 

 

 

 

Comentar