Fotografia, Aquarius e a memória dos objetos.

Nas férias em Natal, minha mãe pediu cópias das fotos dos seus netos que tao empenhadamente faço. “Imediatamente, claro”- respondi. Fui ao shopping do bairro e descubro que a loja de fotografia que existia ali não está mais. Resignada, peguei o carro e me dirigi ao shopping grande, que está no bairro ao lado. E nada. Lá também não resta nenhuma loja onde se possam colocar fotografias em um papel. “Não tem jeito – pensei – vou ter que ir ao monstro”. O monstro é o maior shopping da cidade, cinco andares de feiura. Mas também era lá que estreou Aquarius, o filme do Klebler Mendonça, que estava louca para ver. Ok. Vamos lá. Deixo as fotos na loja, vejo o filme, quando terminar, busco as fotos.

Só que para minha surpresa, também lá não tem nenhuma loja de fotografia. Nada. Kms de corredores com as mais diversas lojas, mas nenhuma onde se possa copiar fotos. Fui ver filme bastante pensativa: se não existem mais lojas de fotografias é porque ninguém mais faz cópias. Não me digam que as pessoas fazem álbum por internet, que isto é a minoria. Simplesmente a maioria das pessoas se contenta com a memória de curta duração. Aquela que compartilha a foto em uma rede social, recebe uns quantos likes e que no dia seguinte ninguém mais lembra. Nem mesmo a pessoa que subiu. Nem cópia de segurança destes arquivos tem. No dia em que perca o telefone, ou que mude a tecnologia, toda esta memória desaparecerá. Os filhos que crescem, os encontros com amigos, as viagens, fins de semana com a família, tudo irá para o buraco negro dos arquivos desaparecidos. Parece que ninguém está preocupado.

Mas pelo menos vi Aquarius e saí deslumbrada. Muito já se escreveu sobre o filme, sobre a Sônia Braga, sobre a questão imobiliária do Recife. Já vivi nesta cidade, no mesmo bairro que a personagem Clara. Morava em um predinho de dois andares, quatro apartamentos, quase uma casa. Tinha buganvilia e um pé de pitanga. Hoje é um edifício moderno de mais de 20 andares. Isto me contaram. Nunca quis voltar para ver. Mas para mim a questão da especulação imobiliária, embora seja a espinha dorsal do filme, não é a mais importante. A personagem Clara é a guardiã não de uma casa ou de um edifício. Mas da memória desta casa. Da cômoda herdada da sua tia, das centenas de discos que a acompanham. Da memória que passará para o sobrinho, mais que para os filhos.

A história da sua família está composta pela própria memória de alguns objetos. Do disco de Lennon que veio com um recorte de jornal e não podemos ter certeza, mas podemos imaginar – isto é o mais legal – todas as aventuras por onde passou. A já citada cômoda que foi testemunha da vida de uma tia, que sofreu e lutou mais que a protagonista. Clara não é uma coitada que briga contra o mau. É uma mulher que quer o direito a ter memória e de preservar esta memória para sua própria família.

Em um mundo de amnésicos em que estamos nos transformando, Clara parece anacrônica. Como parece anacrônica minha mãe, que quer guardar a lembrança das férias dos netos em um porta-retrato na estante de sala, em um mundo onde isto não é mais rentável. Nossa guardiã. Nas nossas fotos somos os protagonistas da nossa própria história. Criadores de nossa ficção. Sem elas deixamos de ser narradores.

Só para terminar, após muito perguntar, descobri que em um hiper-mercado de Natal havia uma loja de fotografia. Consegui por fim fazer as cópias.

 

 

 

 

 

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