Filhas afogadas pelas mães na Era de Aquarius

Viúva, mãe de três filhos. É a descrição do personagem de Sônia Braga na sinopse do filme “Aquarius”, de Kleber Mendonça. O filme chamou atenção pelo seu aspecto político, urbanístico, cultural. Virou símbolo do conturbado momento politico brasileiro. A Clara de Sonia Braga representa a resistência, ao poder, aos cupins e…aos filhos. O filme tem pouco ritmo e diálogos vazios, por isso talvez revele e releve tantas verdades. E aqui gostaria de refletir sobre a maternidade vazia de Clara.

Ela sempre foi moderna, Clara, venceu o câncer, linda, altiva. Logo no começo vemos ela passeando de carro na praia, solta e feliz. Os três filhos pequenos em casa, em uma festa com o pai, o marido apaixonado que a vê chegar já ansioso pela sua demora. Ali já me surpreendi com a liberdade materna dela. Uma geração de mães que se preocupava com si mesma, a beleza e o direito de continuar a ser um indivíduo apesar da procriação. O que mais me impressionou ao longo do filme é que a Clara nunca cozinha, lava roupa, limpa o chão. Tem uma empregada da qual se sente amiga. Dorme na rede, ouve música. Clara é livre.

Não sabemos como foi a adolescência dos seus filhos, em um momento do filme só somos informados que a mãe jornalista se distanciou de casa para escrever um livro sobre Villa-Lobos. A ausência materna influenciou sua filha, Ana Paula, interpretada por Maeve Jinkings, que vomita seu trauma na discussão sobre a venda do apartamento no maravilhoso prédio-fantasma da Praia de Boa Viagem. Recife. O mar que vai e vem. Como a vida. “Só recebemos cartões postais seus enquanto papai se virava pra cuidar sozinho da gente aqui nessa casa”, sofre a filha.

Clara é devastadora. “Você não é a viúva do teu pai, sou eu, e você vai ter que conviver com isso”. Mães que aparentam ser amigas das filhas, companheiras, simulam uma amizade que não é maternal, comentários ácidos que destroem. Clara é um recife diante dos olhar inseguro de Ana Paula. Enquanto é compreensiva e carinhosa -moderna, muito moderna – com o filho gay, exibe sem piedade as fraquezas da filha recém-separada de um pai ausente (“ele nem vai perceber que troquei a babá”), sempre correndo, olhar perdido, se equilibrando entre a vida de mãe e profissional.

A mãe escreveu um livro com uma dedicatória emocionada aos filhos, pelo tempo de lazer que não lhes foi oferecido enquanto trabalhava. Naquela frase-pedido-de-desculpas a mãe Clara cala sua filha, que chora, culpada pela crítica à sua ausência na infância. Reverte o quadro, assumindo mais essa culpa, de filha que não compreende e não respeita a mãe. Senti uma vontade enorme de colocar a Ana Paula no colo. Foi o momento do filme em que chorei, tragada pela dor daquela mulher que não consegue aproveitar todo o empoderamento feminino que a sua mãe exibe, mulheres que, assim como a Tia Lúcia no começo do filme, lutam pelo seu direito ao prazer do sexo oral, que Kleber Mendonça resgata com uma sensibilidade cultural e de gênero rara.

Ana Paula não viveu a revolução sexual, foi tragada por ela. É a personagem que não é tocada na história, não vemos a sua vagina ser admirada, como aconteceu com a Tia Lúcia na cômoda que Clara preserva tão bem no meio da sua sala; ou com a própria Clara, ao ser visitada pelo garoto de programa que lhe serve para dar forças na sua bravata contra os empreendedores imobiliários.

Um amigo ao ver o filme se surpreendeu pela falta de jeito de Clara como avó. Como ela foi uma mãe altiva, é consequentemente uma avó distraída. Empurra o carrinho do neto para um passeio na orla, mas não é capaz de sair do seu pedestal pra ler “Chapeuzinho Vermelho” ou “Os Três Porquinhos” para o netinho de um ano, que está sob seus cuidados enquanto a filha procura uma nova babá.

Clara defende seu direito de morar onde quiser, como quiser, a não permitir a mudança urbana na destruição do seu belo edifício, defende seu castelo, suas conquistas, seus direitos. O filme revela também que as grandes cruzadas têm seu preço, destroem os invasores, mas também podem aniquilar inocentes, os que não puderam ser treinados para o combate. “Você é uma idiota”, agride o irmão. Ana Paula não tem para onde correr. Talvez o pai lhe desse afeto. Mas já morreu. O marido a abandonou para criar sozinha o filho. Ana Paula é de uma solidão muito mais comovente que a mãe Clara no prédio vazio, na vida vazia, repleta de objetos cheios de memória, discos de vinil que ama mais que a menina a quem deu a vida.

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