Entre piolhos e saltos

E nos primeiros dias de outono, na Itália, começam os primeiros ataques de febre e piolhos. Nesses dias nosso blog lembrou do equinócio, das mudanças de estação, na Europa recomeçaram as aulas e as mães que conseguiram aproveitar as férias de verão já dão de cara com os pequenos problemas cotidianos. Dias de trabalho perdido, no caso da febre. Horas passando pente fino à noite, sem chance de ler um livro, ver um filme ou simplesmente relaxar.

As mensagens no wattsapp não param de chegar, relatos estressados das mães da turma “Bimbi Gialli” – as crianças amarelas, por causa da cor do avental que usam para ir à escola maternal. Enquanto nas cidadezinhas italianas começa o caos dos piolhos e das gargantas inflamadas, no Canadá desembarca o príncipe William e Kate, com os filhos George, de 3 anos, e Charlotte, de 1 ano. Kate usa um sapato de salto altíssimo, descendo as escadas do avião com a filha no colo…elegante, segura, amorosa, impassível.

Meu pensamento vagueia entre as mães descabeladas e com olheiras de Pisa e a postura implacável da duquesa inglesa. O que diferenciam essas mulheres? O que nos faz assumir papeis tão diferentes na vivência da maternidade? Podemos nos deixar levar pela ansiedade que nos engorda e desestabiliza, retirando da nossa trajetória vontades e sonhos. Mas é possível também respirar fundo e encarar o desafio como uma princesa, equilibrando no salto alto nossos anseios e projetos. Lembro de uma mãe holandesa encaixando três filhos em uma bicicleta no centro de Amsterdam e saindo pedalando, muito tranquila, com sapatos de salto alto, assim como Kate.

A força que move cada uma de nós, mulheres, ainda mais após a maternidade, é o que transforma culturalmente a sociedade oferecendo novos sujeitos sociais e formas de comportamento que definem as relações e as estruturas de poder. Mães sujeitos da própria vida ou mães objetos da procriação. Um jogo cruel entre ganhadoras e perdedoras, a possibilidade de exibir o seu filho como um troféu ou como um fardo pesado demais para suas costas. Mudam as estações do ano, repetem-se os ciclos, continuam as desigualdades. A cada piolho, menos um pensamento de liberdade. A cada uso do termômetro, a incerteza sobre a força que faz seguir adiante.

E aos domingos mais uma festa de aniversário nos lembra que é hora de festejar a vida, de salto, com febre ou infestada de piolhos, as mães estão lá e olham pra frente. Não importa o quanto a semana seja difícil, é preciso sempre estar pronto para festejar as mudanças.

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