Sonhos de uma noite de inverno

Shakespeare não se interessou pelos sonhos de uma noite de inverno, em que o corpo da mãe precisava esquentar o corpo sacudido pela tosse da filha de quatro anos. Tosse seca, “de cachorro”, o resfriado evoluindo como sempre para uma laringite. “Oberon!! Onde você está? Pede a Puk que pingue um pouco do líquido das flores na garganta da menina para que ela durma em paz e sonhe!” Nada disso, Puk não aparece, a mãe permanece sentada com a menina no colo, reduzindo o fluxo das secreções, massageando o peito. É a terceira filha, cena que já aconteceu com a primeira, o segundo. Como no teatro, a repetição constante da vida que já foi vivida.

Seremos todos personagens em busca de um autor, como refletiu Pirandello? Alguém que conte nossa história para que possamos realmente existir. Porque em uma noite fria de inverno a solidão da tosse da filha oferece a incerteza sobre se é a vida realmente ou é um sonho de que a vida verdadeira se vive assim. E ela acaba no momento seguinte. Os sentimentos mudam no decorrer de uma noite, durante o sono profundo no bosque das nossas expectativas, trabalho, contas para pagar. Como Demétrio pode passar a amar Helena de um momento para o outro? E como Lizandro um dia amava uma e no dia seguinte ama outra? “Por que vocês estão fazendo isso comigo?”, gritará Helena, vilipendiada na sua dignidade, ela que sempre obedeceu seu coração…

As noites das mães são secretas, os seus corpos escravizados pelo afeto infinito e incondicional que dedicam a esses outros corpos, que um dia foram parte de si, partiram, mas não se separam nunca. Daria meu corpo em troca do teu. Deixe que essa tosse me dilacere o peito no teu lugar. Promessas de amor que se repetem nos sonhos de uma fria noite de inverno. E quando amanhece, ambos os corpos exaustos pela noite insone percorrendo o bosque da dor, o corpo da mãe precisa levantar, pra cuidar dos outros filhos, da roupa que é preciso ser lavada, da comida que deve ser preparada. O outro corpo repousa.

Não, não vou te trair. Prometi que assumiria a tosse em seu lugar, para que você pudesse brincar, sorrir, correr, saltar. Para que você conquistasse seu espaço, para que você tivesse sucesso naquilo que o dia ofereceria para você um dia. E assim a tosse vem e sacode o corpo da mãe, oprimindo a laringe até que a voz se apague, reste um fio de comunicação com a vida que não é sonho, que é a viagem da vida cotidiana com suas pequenas frustrações e conquistas. Como é bom ver um teatro feito com tanta verdade e intensidade. Esses personagens representando tão bem os seus papeis que quase parece vida real, não sonho, de uma fria noite de inverno.

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