Minhas filhas contra Rafaela Silva, a judoca medalha de ouro

No dia seguinte em que a Rafaela Silva ganhou a medalha de ouro no judô, milhares de outras meninas estavam indo pra escola. Entre elas, minhas filhas. Falamos da vitória de Rafaela como um grande acontecimento, demonstração de que os excluídos podem ser incluídos na história com esforço e determinação. Pensamos nas oportunidades da vida, pensei na falta delas. De fora, o mundo das minhas meninas parece mais amável, mas nem tanto, é preciso cavar na areia macia da existência um lugar para germinar. E o terreno é árido hoje para todos, nascidos ou não nas favelas, nos países pobres ou ricos, nas nações em guerra ou estáveis.

Crescemos com a sensação viva de que não existe um percurso confiável. A vida não é mais crescer, trabalhar, casar, ter filhos. A vida é conquistar um lugar, que pode ser um pódio para exibir sua medalha, o trabalho bem sucedido, os filhos bem vestidos, a casa comprada. Pode ser um observar angustiado a felicidade alheia enquanto o coração desmancha-se em um líquido viscoso de autocomiseração e falta de esperança. As minhas filhas falavam da Rafaela como um exemplo impossível. “Ela precisou lutar desde pequena, ficou mais forte que a gente, por isso derrubou a outra”, as frases dos filhos ecoam pelo carro enquanto vamos para a escola.

Minha mãe contava que ia pra escola a pé, de tamancos no verão, de sapato com sola de papelão no inverno. Primeiro seguindo a linha do bonde em Guaratiba. Depois, ao se mudar para Campo Grande, atravessava a linha de trem do subúrbio. Caminhava 2 quilômetros para estudar. Rafaela muitas vezes não teve nem esse direito, de caminhar de havaianas para ir para a escola. Meus filhos vão de carro, aquecimento no inverno, ar condicionado no verão. Uma diferença essencial na formação do corpo e da alma. Não é que elas também não possam ser campeãs de judô no futuro. Mas elas mesmas se deram conta que lhes falta força, que de alguma forma a vida que experimentam não cria músculos nem no corpo nem na alma.

Rafaela, para elas, é superior. Porque conquistou o que não era previsto, porque reverteu o fluxo da derrota, ao nascer derrotada e buscar o pódio. Cada criança que nasce é uma vitória da natureza, mas nem sempre resultado de amor humano. Crianças como Rafaela nem sempre são desejadas, amadas e reverenciadas. São mais uma no meio de tantas. Impossível de identificar no meio da multidão de rostos morenos, negros, cansados, uma menina a ser respeitada. Senti tristeza na voz da minha filha mais velha e vi no seu olhar a consciência ainda nascente da dificuldade em descobrir o que pode ser feito bem. “Eu nem imagino o que vou ser quando crescer, tenho medo de não ser nada.”

O sucesso é a unidade de medida de ser. Só quem ganha medalha vira notícia. O resto da humanidade, nesses dias de Olimpíadas, é só poesia, retalhos de uma história de excluídos. Entre a miséria da Rafaela e a miséria humana existe um vácuo onde tentamos todos nos esconder e proteger, mas que no fundo queremos ser encontrados e também reverenciados e certamente amados. Rafaela evitou a Internet nos dias anteriores às suas lutas. Precisava estudar e se concentrar. A militar da Cidade de Deus, a favela da violência do inferno, ensina às minhas filhas – e todas as outras meninas que iriam para escola naquela manhã – que estudar e se concentrar, concentrar e estudar são regras fundamentais para afofar a terra e deixá-la em condições de lutar, mesmo que não seja para ganhar, como aconteceu com a outra judoca eliminada nas quartas de final, Mariana Silva.

Comentar