Burkini

Daqui de longe, ainda de férias no Brasil, venho acompanhando toda a polêmica do verão europeu, sobre a proibição do chamado “burkini” (a roupa de banho integral, usada por algumas mulheres muçulmanas para ir à praia) em algumas cidades do sul da França. E na proteção que sentimos dentro da casa da nossa mãe, me atrevo a meter a colher neste assunto tao espinhoso.

Polêmico porque podemos concordar com os argumentos dos dois lados: de quem é a favor e de quem é contra a proibição. Quem é favorável  acredita que o “burkini” atenta contra a liberdade das mulheres. É uma forma imposta e violenta de vestir, que não tem nada que ver com preceitos religiosos. Porque se assim fosse, também seria obrigatório para os homens e não é. Este “decoro” é obrigação exclusiva das mulheres e o mundo ocidental “civilizado” não pode compactuar com este tipo de machismo.

Quem é contra a proibição defende que não podemos nos meter na fé, nem na vida privada de ninguém. É uma escolha individual. Além disso, proibindo, você limita- muitas vezes impede- que estas mulheres aproveitem um dia de praia. Obriga a que elas se encerrem em casa. Exclui, não integra.

O certo é que esta polêmica não existiria se não fossem os trágicos atentados que aconteceram na França no último ano. A defesa das mulheres muçulmanas, tanto de um lado, quanto de outro, não passa de argumento político para uma platéia assustada de eleitores, que votará em massa na extrema direita nas próximas eleições. Podem ter certeza. E querem transformar em problemática uma convivência que sempre existiu de forma pacífica.

Vivo na Espanha, não na França, e aqui a comunidade muçulmana (a maioria de origem marroquina) é a segunda maior comunidade de imigrantes. Pelo menos em Zaragoza, o convívio é amistoso e, em 11 anos na cidade, apenas uma vez vi uma mulher vestida com um burka. Foi no supermercado, me impactou. A mim e todos, pois se abria um clarão à sua volta. Ninguém se aproximava.

Algumas cidades espanholas também proíbem a entrada em instituições públicas à mulheres com a cara totalmente coberta. Argumentam que elas nao poderiam ser identificadas. Mas a maioria das mulheres muçulmanas usa apenas o véu para cobrir os cabelos e só.

Meus filhos estudam na escola pública do nosso bairro e tem alguns amigos de religião islâmica. Na escola, as crianças participam de todas as festas sem distinção e isto inclui Natal e Carnaval. Inclusive, as mães árabes participam da festa de Natal trazendo aqueles maravilhosos doces que só os árabes sabem fazer. Também ajudam a confeccionar as fantasias para a festa de Carnaval, que no Jardim são feitas na própria escola. Na última festa, achei bastante curioso ver um menino muçulmano vestido de cavalheiro medieval e me perguntei se eles já tinham estudado as Cruzadas. Mas enfim, eles se divertiram sem pensar na história dos adultos, sempre tao sangrenta.

No almoço da escola, a comida das crianças de fé islâmica   é feita separadamente. Eles não comem apenas carne de porco. A proibição é para toda comida que não seja “halal”. Quer dizer, que não obedeçam preceitos religiosos na hora do sacrifício dos animais. Por exemplo, uma vaca tem que ser sacrificada com um único corte limpo, com a cabeça voltada para Meca. Como a escola não trabalha com fornecedores “halal”, as crianças têm basicamente uma dieta vegetariana. Como proteína, comem somente ovo e peixe. Mas comem lado a lado com as outras crianças e, pelo que sei pelo meu filho, de vez quando, os meninos trocam as bandejas entre eles.

Sem entrar tanto polêmica do machismo – em que homens eternamente querem ditar o que as mulheres devem ou não vestir, todo mundo opina –  o que sinto é raiva destes políticos, que tentam criar um problema de convivência entre comunidades. Porque no fundo tudo isto é um jogo para a platéia. Ajuda a conseguir votos entre quem tem medo. Assusta. Aumenta o preconceito. Alimenta a xenofobia. Parece que estão nos defendendo, quando estão criando desconfiança. Porque se de fato quisessem defender as mulheres, criariam melhores condições de trabalho e integração social.

Então, esqueçam o “burkini”. Ele não é um problema. O jogo aqui é outro.

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